Há uma pergunta que precisa ser feita de forma clara: a quem interessa paralisar um processo que vinha sendo realizado no rio Tapajós há anos, dentro da legalidade, seguindo critérios técnicos e ambientais? É uma pergunta legítima. Porque não estamos falando de uma obra nova, improvisada ou desprovida de controle ambiental. Estamos falando da dragagem de manutenção de um dos principais corredores logísticos do Brasil, uma intervenção que sempre fez parte da gestão da navegabilidade da hidrovia e que, agora, sofre uma interrupção difícil de compreender.
O mais preocupante é que isso acontece justamente quando todos os alertas apontam para uma nova estiagem severa na Amazônia, impulsionada pelo super El Niño. Ou seja, diante de um problema conhecido, com consequências previsíveis e soluções técnicas disponíveis, escolheu-se interromper uma medida preventiva. É impossível não questionar essa decisão que negligencia consequências muito danosas e fere os princípios do interesse público. Nós não podemos ficar reféns de disputas ideológicas e nem de movimentos eleitoreiros apelativos.
Causa ainda mais estranheza que um processo dessa relevância tenha permanecido sem definição no âmbito do governo federal, enquanto os impactos econômicos, sociais e logísticos já eram amplamente conhecidos.
Quem conhece a realidade amazônica sabe que nossos rios não são apenas corredores de exportação. São estradas. São vias de abastecimento. São o caminho por onde passam alimentos, combustíveis, medicamentos, insumos industriais e pessoas.
Quando uma hidrovia deixa de operar plenamente, não é apenas a logística que para. A economia desacelera. Comunidades ficam mais isoladas. O custo de vida aumenta. O desenvolvimento perde velocidade. Os números mostram a dimensão do problema.
Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Conab, os portos responderam por 39,5% das exportações brasileiras de soja e milho em 2025. Esse crescimento fortalece toda a logística integrada do corredor, incluindo os terminais de Santarém e Barcarena, no Pará.
Agora, estima-se que entre 3,5 milhões e 5,5 milhões de toneladas de cargas possam ter seu escoamento comprometido. O impacto financeiro pode superar R$ 500 milhões apenas em custos adicionais de transporte.
Como se não bastasse, obrigar essas cargas a percorrer rotas mais longas significa emitir aproximadamente 55 mil toneladas adicionais de CO₂, uma contradição para um país que busca protagonismo nas discussões sobre sustentabilidade e redução de emissões.
É difícil aceitar uma decisão dessa natureza que produzirá, simultaneamente, prejuízos econômicos, sociais e ambientais. Temos insistido em uma mensagem simples: desenvolvimento e conservação não são conceitos incompatíveis. Nosso inconformismo é pelo que é certo e justo.
A própria FIEPA defende que qualquer intervenção respeite integralmente a legislação ambiental, os estudos técnicos e o diálogo permanente com as comunidades. Não se trata de flexibilizar regras. Trata-se de garantir que, como está sendo feito com o Tapajós, processos conduzidos dentro da legalidade tenham previsibilidade, segurança jurídica e respeito às decisões técnicas.
O Pará não pode continuar pagando o preço de decisões que desconsideram sua realidade logística. Infraestrutura não pode ser tratada como tema secundário ou objeto de disputas ideológicas. Defender a navegabilidade do Tapajós não é defender apenas uma hidrovia. É defender empregos, abastecimento, competitividade, segurança jurídica e o direito de participarmos plenamente do desenvolvimento sustentável do Brasil.



