Decisão dos Estados Unidos sobre o alumínio provoca era da incerteza

Em artigo, o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), Milton Rego, afirma que a grande questão para o mercado de alumínio são os desdobramentos que uma guerra comercial entre os EUA e China pode trazer para o resto do mundo
O objetivo da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) é duplo: reduzir ao máximo os impedimentos às nossas exportações e monitorar o que pode acontecer com as importações

No momento em que estou escrevendo este artigo, o mercado de alumínio no mundo está passando por um período de grande volatilidade. Muita coisa está acontecendo e tudo tem a ver com a maneira como os Estados Unidos tratam o problema.

O preço do metal na Bolsa de Londres (London Metal Exchange), que é referência para o valor do alumínio no mundo inteiro, apresentou um salto desde o anúncio da sobretaxa de importação ao aço e alumínio por parte do governo norte-americano. Acima do valor da LME é cobrado um prêmio por fatores de oferta e logística na entrega do produto físico. Esse prêmio varia em função da oferta do alumínio aos mercados. Nos EUA, o valor do prêmio entrou em uma verdadeira montanha russa quando o governo americano começou a impor restrições à importação do metal.

Essas restrições são percebidas em função da retórica de guerra comercial, que vai e volta ao sabor dos tweets do “@realDonaldTrump”.

Toda essa história começou com o aumento das tarifas de importações de aço e de alumínio. Inicialmente, o argumento para a aplicação das medidas seria diminuir a diferença de preços entre os produtos “made in America” e os importados e, assim, recuperar a indústria de defesa americana. 

Esse pretexto se mostrou completamente falso. A grande questão do governo Trump sempre foi diminuir o enorme déficit comercial dos EUA especialmente com a China e a medida inicial de aumento de tarifas faz parte de uma série de ações de uma escalada protecionista. Começou com o aço e o alumínio, mas rapidamente as restrições se estenderam para produtos chineses.

Isso fez com que o preço do alumínio nos EUA começasse a subir. No início do anúncio da medida houve uma enorme pressão nos mercados, especialmente no Canadá - o maior fornecedor de metal alumínio para os Estados Unidos.

O governo americano acabou retirando o Canadá e o México da aplicação das medidas por estarem no Nafta; o prêmio caiu. Depois, postergou a aplicação das medidas para Argentina, Austrália, Brasil, União Europeia e Coréia do Sul; e o prêmio caiu mais ainda. 

Depois começou a negociar individualmente com cada país (o que ainda está acontecendo), utilizando a aplicação da medida como moeda de troca para outras questões e propondo estabelecimento de quotas. Lembro que o Ministro que está tratando do assunto (chamado US Representative) é Robert Lighthizer, da administração Reagan que, nos anos 1980, negociava quotas de importações de carros japoneses aos EUA. O que aconteceu? O prêmio subiu.

Em seguida, apresentou uma demanda contra a China a respeito de proteção de direitos de atividade intelectual com impacto de dezenas de bilhões de dólares. A China anunciou o estudo de aplicações de impostos aos produtos americanos de igual valor.

EUA e China entraram com pedidos de análise um contra o outro na OMC (Organização Mundial do Comércio). Além do preço do alumínio, o mercado financeiro mundial se mexeu em busca de qualidade. O real desvalorizou.

O mercado começou a se estabilizar quando veio o segundo anúncio – os EUA impuseram sanções a empresários, empresas e funcionários russos, atingindo pessoas próximas ao presidente Vladimir Putin e, entre eles, a RUSAL, que produz cerca de 6% do alumínio do mundo e é o segundo fornecedor de metal alumínio para os EUA. Isso causou mais turbulências. 

O preço da LME subiu de US$ 1.987 por tonelada para US$ 2.144. Os prêmios físicos dos EUA estão subindo novamente. É onde estamos agora...

É importante refletirmos sobre essas questões, porque muitas pessoas tendem a concordar com a ideia dos países de se colocar em “primeiro lugar” em oposição aos outros países, como se fosse o remédio para falta de competitividade da indústria.

Em primeiro lugar, déficits comerciais sistemáticos como o dos EUA tiveram um papel importante para aquele país: eles se beneficiaram pelo fato de consumir mais do que produziram e de ter investimentos maiores do que a sua poupança interna possibilitaria – o resto do mundo os financia. Quem dera o Brasil pudesse fazer isso sem quebrar. Ou, visto de outra forma, foi justamente esse déficit comercial que suportou o crescimento americano em uma situação de desemprego baixo.

Estamos acompanhando, junto ao governo brasileiro, as negociações sobre a aplicação das tarifas propostas pela Investigação 232 (como foi chamado e estudo que deu origem às medidas de proteção da indústria). O prazo encerra-se no último dia desse mês de abril.

Não estamos em um período promissor do comércio internacional, pelo contrário. A preocupação no mundo inteiro é a possibilidade de que isso inicie uma guerra de aumento de tarifas ou restrições de comércio entre os principais países produtores.

Em segundo lugar, temos de diferenciar o resultado de exportações subsidiadas da China do que está relacionado com a falta de dinamismo da indústria americana. A mesma coisa acontece com o Brasil. O argumento inicial de garantir a “indústria de defesa” é meramente um pretexto. Ou seja, não existe uma “ética” de fair trade.

Por outro lado, a China suprime o princípio da ética na competição por outro mais cínico: quanto maior a competição, mais vale ser monopolista. Então, estamos em uma briga de grandes e maus.

Para o Brasil, a grande questão neste momento para o mercado de alumínio são os desdobramentos que uma guerra comercial entre os EUA (o maior mercado mundial) e a China (o maior exportador mundial) pode trazer para o resto do mundo. Primeiro devido à volatilidade dos preços, como já observamos nos mercados americanos. Depois porque, à medida em que os EUA adotarem restrições unilaterais, certamente haverá significativo desvio de comércio dos produtos chineses para o mercado brasileiro e os nossos outros mercados de exportação. O nosso papel é acompanhar atentamente todas as discussões sem nos tornarmos o dano colateral.

Neste cenário, o objetivo da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) é duplo: reduzir ao máximo os impedimentos às nossas exportações e monitorar o que pode acontecer com as importações.

Todos os países têm recorrido a práticas protecionistas em diferentes etapas do crescimento econômico. Isso é importante, afinal, nos manterá no jogo, mas de curta duração. Em longo prazo, existe um grande caminho a ser percorrido no sentido de construirmos uma indústria competitiva e sustentável.

*Milton Rego é Engenheiro mecânico, economista e bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Gestão pela Fundação Dom Cabral, desde 2014 é o presidente-executivo da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL).

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