A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia como equivocada e excessivamente conservadora a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A prolongação do aperto monetário mantém o crédito caro, prejudica empresas e famílias e trava, ainda mais, a economia.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, defende que o Copom retome o ciclo de corte dos juros já na próxima reunião, prevista para dezembro. “A Selic permanece muito alta e isso afeta crédito, investimentos e a atividade econômica. É verdade que as expectativas para a inflação pioraram, mas o IPCA segue dentro do intervalo da meta no chamado horizonte relevante da política monetária. É possível continuar diminuindo os juros em ritmo compatível com a convergência da inflação para a meta, sem impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade dos preços”, aponta.
Políticas monetária e fiscal continuam desalinhadas
A reação negativa dos mercados pós-eleição, caracterizada por desvalorização cambial, elevação dos juros longos e queda na bolsa, reflete o aumento dos prêmios de risco fiscal. Três elementos merecem atenção:
- A meta de resultado primário só será cumprida devido às deduções legais;
- A dívida pública não para de crescer e boa parte dela está indexada à própria Selic, que contribui para retroalimentar o endividamento;
- O mercado percebe o risco fiscal como a principal ameaça à estabilidade financeiro-monetária.
O quadro revela que as políticas fiscal e monetária continuam desalinhadas. A falta de sinalização de equilíbrio das contas públicas gera desconfiança entre os credores da dívida, que passam a exigir maior retorno, além de pressionar o câmbio e contaminar as expectativas de inflação.
Todavia, os efeitos desse descompasso não devem ser corrigidos com juros mais altos por mais tempo: um choque de origem fiscal pede resposta no campo fiscal. Manter a Selic em patamar restritivo resulta na transferência do custo do ajuste para as famílias e as empresas, já pressionadas pelo endividamento elevado e pelo crédito caro. Por isso, um compromisso crível com o equilíbrio das contas públicas, capaz de reduzir o prêmio de risco e ancorar as expectativas, é condição para que os juros possam cair de forma mais rápida e sustentável.
Expectativas de inflação pioraram, mas não justificam interrupção do ciclo de cortes da Selic
As expectativas de inflação pioraram nas últimas semanas, em boa medida por causa da desvalorização do real e da alta dos juros que se seguiram ao segundo turno da eleição presidencial. O quadro é distinto, porém, no horizonte relevante da política monetária, que hoje corresponde ao segundo trimestre de 2028. Para esse recorte, a mediana das projeções do Focus é de 4%, dentro do intervalo de tolerância da meta para o IPCA. A inflação esperada não está no centro da meta, de 3%, mas permanece no intervalo, mesmo após a piora recente. Com a Selic em 13,75%, o juro real permanece em torno de 8,4%, bem acima da taxa neutra de 5%, patamar que equilibra o controle inflacionário e o crescimento da economia. É importante lembrar que a política monetária segue contracionista há 58 meses.
Juros altos pesam sobre a economia
A política monetária restritiva tem pesado sobre a economia real. A manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados por um período prolongado vem endurecendo as condições de crédito, encarecendo o capital de giro e desestimulando decisões de investimento e consumo. Como resultado direto desse ambiente financeiro adverso, os indicadores de atividade passaram a registrar sinais de retração nos principais setores.
Na Sondagem Industrial da CNI de setembro, os estoques indesejados atingiram o maior nível desde outubro de 2023 e a margem de lucro teve a pior avaliação desde a pandemia. A perda de fôlego, porém, não se restringe à indústria. Em agosto, as vendas do varejo estavam cerca de 1% abaixo do nível de janeiro, com perda de força concentrada nos segmentos mais sensíveis ao crédito, enquanto o volume de serviços permanece praticamente parado desde o fim de 2025.
Política monetária sufoca empresas e consumidores
A restrição monetária também afeta diretamente a saúde financeira dos agentes. O comprometimento de renda das famílias atingiu 29% em agosto, o maior nível em 21 anos, e o endividamento alcançou o recorde de 50,1% da renda acumulada em 12 meses. Na indústria, a pressão chega ao caixa das empresas. Em consulta da CNI aos empresários do setor realizada em outubro, 51,9% esperam maior necessidade de financiamento para pagar fornecedores nos próximos três meses e 56,9% projetam redução do lucro.



