Não é novidade: o conceito de economia circular está consolidado como um modelo econômico viável no meio acadêmico. Da mesma forma, as boas práticas do setor produtivo têm contribuído para um cenário cada vez mais favorável. No setor financeiro, a sinalização de investimentos valiosos tem aumentado.
Por que, então, ainda existem tantos desafios de mercado no Brasil, que impedem a adoção dessas práticas em grande escala? O que falta para o país acelerar a transição de uma economia linear para uma economia circular?
Segundo o diretor executivo de ESG do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luiz Gabriel de Azevedo, financiar a circularidade em escala é um grande desafio.
“Um dos principais entraves é o modelo de negócio tradicional linear, que ainda foca na produção em massa. As empresas já compreendem que as soluções de economia circular oferecem novas oportunidades de valor no mercado, porém, os modelos circulares exigem uma mudança sistêmica. Produtos circulares demandam investimento em pesquisa, inovação e design, por exemplo”, explicou o especialista em ESG, durante o painel no Fórum Mundial de Economia Circular, que teve início nesta quarta (13), em São Paulo.
Confira as novidades da indústria no Fórum Mundial de Economia Circular
Para Azevedo, é preciso pensar a longo prazo e focar em ações. “Como podemos trazer iniciativas interessantes e que podem ser aplicadas em escala? Temos muitas vantagens competitivas no Brasil. É uma oportunidade que não podemos desperdiçar na América Latina e Caribe”, destacou.
O representante do BID também afirmou que é necessário mudar a maneira como identificamos e avaliamos projetos, atribuindo mais peso a benefícios de longo prazo. “Muito pode ser obtido com as novas taxonomias [forma de avaliar se uma atividade/empresa é sustentável]. E, nesse ponto, os financiamentos dos setores público e privado são fundamentais”, apontou.
Na opinião de Ambroise Fayolle, vice-presidente do Banco Europeu de Investimento (EIB) e que também participou do painel, a insegurança nos investimentos torna a economia circular menos atraente para o mercado.
“A falta de regulamentação é um grande obstáculo. Previsibilidade e certeza são importantes, porque estão relacionadas ao risco. E são elementos interessantes, porque são positivos. É um processo lento, é verdade, mas totalmente necessário”, pontuou.
Fayolle acrescentou que os produtos circulares costumam ser avaliados somente pelo preço. “Essa disparidade também desencoraja investimentos na economia circular. O plástico é um grande exemplo disso. Se avaliarmos a poluição plástica dos oceanos, em 2050 haverá mais plástico do que peixes no mar. Não é fácil repensar esses modelos, mas existem maneiras corretas de promover a produção, venda e tratamento de matérias-primas secundárias”, garantiu.
O especialista foi enfático ao dizer que a economia do futuro é circular. “E vamos precisar cada vez mais de matérias-primas críticas. Se avaliarmos como se faz o design desses produtos, considerando sua reciclagem e com foco no processo circular, teremos um futuro esperançoso pela frente”, afirmou Fayolle.
Outro ponto de atenção abordado por Luiz Gabriel de Azevedo foi a ausência de regras de contabilidade padronizadas. “Essa é uma barreira importante para destravarmos investimentos na área. Quando você engaja em projetos de economia circular, você precisa assumir outros riscos que vão além do financeiro, como o de reputação. O sistema financeiro precisa estar preparado para isso”, alertou.
Azevedo afirmou que os padrões de contabilidade melhoram a transparência. “As empresas precisam ter KPIs [indicadores] muito bem definidos, para medir o retorno. Na medida em que padronizamos as métricas financeiras, possibilitamos a expansão de produtos financeiros baseados em sustentabilidade. Conectar a economia circular a outros riscos, com métricas padronizadas, permite aos investidores avaliarem a viabilidade a longo prazo. Ou seja, a métrica é vital para reduzir a incertezas e melhorar os investimentos”, avaliou.
Confira como foi o primeiro dia do Fórum Mundial de Economia Circular, do qual a CNI é organizadora:
Sobre o WCEF2025
O Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF2025) será realizado de 13 a 16 de maio. Nos dias 13 e 14, a programação principal ocorrerá no auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Já nos dias 15 e 16, as sessões de aceleração serão promovidas por organizações parceiras em diversos locais da cidade e do mundo.
A iniciativa é promovida pelo Fundo de Inovação da Finlândia (Sitra), em parceria com a FIESP, CNI, SENAI e SENAI-SP.



