O Movimento Empresarial pela Saúde (MES), iniciativa do Serviço Social da Indústria (SESI) com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), realizou nesta terça-feira (19), em São Paulo, reunião do Grupo de Trabalho sobre Dados e Inteligência em Saúde. O encontro reuniu executivos, gestores de saúde corporativa e lideranças do setor para discutir interoperabilidade, uso estratégico de dados e inteligência artificial aplicada à saúde.
As discussões se basearam nos aprendizados da imersão realizada entre 13 e 17 de abril, em Barcelona, na Espanha, onde representantes do grupo conheceram experiências voltadas à integração digital e à gestão interoperável da saúde na Catalunha. O modelo europeu serviu de referência para o debate sobre possíveis aplicações no contexto brasileiro, especialmente diante dos desafios de fragmentação entre os sistemas público e privado.
Para Greyce Guasselli, coordenadora do MES, o avanço da integração de dados em saúde no Brasil depende da articulação entre indústria, especialistas e órgãos reguladores, além da construção de modelos testados antes da implementação em larga escala.
“Temos buscado construir propostas que olhem todos os atores do ecossistema de saúde e que respondam um desafio comum: a gestão estratégica de saúde. Antes que qualquer implementação chegue ao mercado de forma estruturada, nosso papel é justamente reunir uma base metodológica sólida, alinhada aos aspectos regulatórios e respaldada por testes e validações necessários para que esse processo aconteça de maneira mais segura, eficiente e acessível para as organizações”, afirmou Guasselli.
Segundo Guasselli, o grupo prevê projetos-piloto em parceria com instituições e órgãos reguladores, utilizando o ecossistema empresarial para validar metodologias, fluxos operacionais e modelos regulatórios. A iniciativa também inclui discussões sobre atenção primária e construção de linhas de cuidado mais integradas.
Sem integração de dados, saúde corporativa perde eficiência
O diagnóstico consolidado entre os participantes foi claro: sem acesso, integração e uso qualificado de dados, não há gestão populacional eficiente, previsibilidade de custos, nem capacidade de avaliar impacto e desfechos em saúde.
Durante a reunião, os participantes destacaram que o Brasil já possui uma estrutura robusta de digitalização da saúde pública. Dados apresentados no encontro mostram que a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) reúne mais de 4,3 bilhões de registros integrados, enquanto o aplicativo Meu SUS Digital já ultrapassa 69 milhões de acessos. Atualmente, cerca de 60 mil estabelecimentos de saúde estão conectados ao sistema à estratégia nacional.
Representando a Fundação Zerrenner, Eduardo Spinussi afirmou que o desafio brasileiro está na capacidade de integrar e utilizar essas informações de forma coordenada.
“A saúde avança muito sobre aspectos de diagnóstico, tratamentos, moléculas e inovação, mas ainda enfrenta dificuldade de fazer o básico quando se olha para a organização do sistema. Temos uma medicina extremamente avançada nos tratamentos e ainda muito arcaica quando falamos sobre modelos de gestão capazes de coordenar a jornada do beneficiário ao longo da vida”, comentou Spinussi.
Ao comparar os modelos, Spinussi destacou que a Catalunha consolidou uma lógica integrada entre diferentes prestadores de serviço, permitindo maior fluidez no compartilhamento de dados e continuidade do cuidado. No Brasil, porém, a divisão entre SUS, saúde suplementar e redes privadas ainda dificulta a interoperabilidade.
O médico da Teva, Fabio Carvalho, também ressaltou os impactos da desconexão entre os sistemas público e privado. “A falta de comunicação entre público e privado leva fatalmente à ineficiência, ao gasto excessivo de recursos e à redundância de exames. Precisamos entender a jornada do paciente em cada sistema e construir interoperabilidade para garantir mais eficiência e qualidade no cuidado”, destacou.
Além dos debates técnicos, o grupo apresentou um cronograma de trabalho para 2026, com ações voltadas à construção de modelos de compartilhamento de informações em saúde, mapeamento de requisitos sistêmicos, realização de datathon, maratonas colaborativas para o desenvolvimento de soluções com uso de dados em saúde suplementa, e definição de propostas para a agenda anual do GT.



