NATAL (RN) - O Rio Grande do Norte reúne duas forças estratégicas para a indústria do futuro: recursos naturais capazes de impulsionar a transição energética e uma produção de sal marinho que responde por cerca de 95% do volume nacional. Foi nesse território de oportunidades que novas lideranças industriais de diferentes regiões do país se reuniram para discutir como transformar potencial em competitividade. Nesta sexta-feira (9), o último dia do Encontro Nacional dos Jovens Industriais (ENAJI) 2026, em Natal, conectou planejamento empresarial, liderança feminina, inteligência artificial, descarbonização, internacionalização e os desafios da Nova Indústria Brasil (NIB).
Ao longo dos três dias o evento reuniu empresários, sucessores, gestores e empreendedores para compartilhar experiências e discutir caminhos para o desenvolvimento da indústria brasileira.
A palestra Planejamento estratégico, cultura e gestão, conduzida por Marcos Marques, fundador e CEO do Grupo Acelerador, iniciou as atividades com a provocação “Você está planejando falhar?”, o executivo chamou a atenção para os riscos de administrar empresas sem objetivos claros, indicadores de desempenho e planos de ação alinhados às prioridades do negócio.
Para Marques, o planejamento só cria resultados quando mobiliza as equipes e orienta a execução da estratégia. “O grande desafio é mobilizar as pessoas”, afirmou. Para as novas lideranças, especialmente sucessores de empresas familiares, a mensagem foi direta: assumir o comando exige competência, responsabilidade e resultados mensuráveis.
Liderança feminina exige participação nas decisões
Na sequência, a presença das mulheres nos espaços de poder e os desafios de conciliar gestão, inovação e propósito marcaram a mesa-redonda sobre liderança feminina, mediada por Déborah Sayonara, Gestora de Oportunidades e CEO da Matersol. Participaram Lua Andrade, CEO da Elas Vida Leve; Mônica Monteiro, presidente do Fórum da Mulher Empresária da Confederação Nacional da Indústria (CNI); Polyanna Alves, superintendente da Neoenergia Cosern; e Conceição Praxedes, CEO da Refimosal e presidente do Simorsal.
As participantes abordaram os desafios de conciliar resultados, inovação, propósito e gestão de pessoas. Polyanna destacou a importância de integrar essas frentes, enquanto Lua Andrade defendeu que valores precisam estar associados à sustentabilidade financeira do negócio. “O propósito é importante, mas o propósito por si só não adianta”, afirmou a empresária.
Mônica Monteiro ressaltou a importância de assumir riscos e aproveitar oportunidades profissionais. Alertou para a diferença entre a presença simbólica e a participação efetiva das mulheres nos espaços de poder. “Colocar a mulher em fotografias é uma coisa; ouvir a mulher e sentar à mesa é outra”, observou. Conceição Praxedes, por sua vez, destacou o conhecimento técnico como fundamento da autoridade feminina na indústria. “É preciso provar conhecimento com o dobro de precisão para impor autoridade”, ressaltou. Os relatos reforçaram que ampliar a liderança feminina exige reconhecimento profissional, autonomia econômica e participação real nas decisões estratégicas.
Inteligência artificial exige estratégia e segurança
No painel “Inteligência Artificial e Novas Tendências”, Gustavo Sant’ana, engenheiro em Inteligência Artificial da Oracle, e Alberto Kastro, estrategista em Inteligência Artificial Aplicada, discutiram aplicações e riscos da tecnologia nas empresas. Sant’ana apresentou a evolução da inteligência artificial, dos modelos preditivos aos agentes capazes de planejar ações e automatizar tarefas.
Na indústria, as aplicações incluem inspeção visual com drones, controle de qualidade, manutenção, suprimentos e planejamento logístico. “O ganho mesmo está quando você consegue colocar qualidade, diminuir o tempo e melhorar o custo do seu processo”, explicou Gustavo.
Os especialistas destacaram a importância de classificar dados, controlar acessos, garantir a soberania das informações e manter a rastreabilidade. Sobre a adoção da tecnologia, ressaltaram, que deve envolver lideranças e profissionais de todas as áreas, com foco em problemas concretos e geração de valor.
Descarbonização abre oportunidades para a indústria nacional
Na parte da tarde, a mesa-redonda sobre descarbonização destacou o potencial brasileiro para atuar mais forte em energias renováveis e tecnologias de baixo carbono, com oportunidades em eficiência energética, armazenamento, biocombustíveis, economia circular e processos industriais mais limpos. Mediada por Lorena Roosevelt, head do Polo Sebrae de Energias Renováveis, a mesa reuniu Rodrigo Mello, diretor regional do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), e Jansen Martins Lopes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento de Energias da Petrobras.
Para Rodrigo Mello, a disponibilidade de recursos naturais precisa estar associada à viabilidade econômica. “Além de ser renovável, a energia precisa ser competitiva”, afirmou. Jansen apresentou iniciativas da Petrobras em biocombustíveis, baterias, captura de carbono, geração renovável e eletrificação de operações. Segundo ele, diferentes tecnologias terão de atuar de forma complementar. “Não existe bala de prata. A gente pesquisa várias formas e entende quais vão se compor”, explicou.
Os painelistas também destacaram a importância da pesquisa, da formação profissional e da parceria entre empresas, universidades e instituições de inovação. O propósito é reduzir emissões e fazer com que a descarbonização diminua custos, fortaleça fornecedores e abra novos mercados.
Mercado externo exige preparo e diversificação
O painel com o tema Mercado externo: como RN atua e as tendências de crescimento reuniu Ulisses Medeiros, da ApexBrasil; Arimar França Filho, da Produmar e do SindiPesca RN; Luiz Eduardo Simas, da Sam’s; e Antônio Carlos Osório, da Salinor, para discutir oportunidades e desafios da internacionalização.
Os debatedores destacaram a importância do planejamento, das certificações, da diversificação de mercados e da adaptação às exigências comerciais. Simas ressaltou a busca por novos destinos diante das mudanças tarifárias, enquanto Osório apresentou a expansão da Salinor, que passou de cerca de 50 mil toneladas de sal exportadas no início dos anos 2000 para aproximadamente 1 milhão de toneladas por ano.
“Talento é importante, mas não é suficiente. Quem quer exportar ou ampliar os negócios no exterior precisa trabalhar duro, pensar grande e cuidar dos detalhes”, afirmou Osório.
Nova indústria exige novas formas de liderar
Na palestra de encerramento, Liderança para os desafios inéditos da NIB, Alex Marson, idealizador da Neolideranças, defendeu novos modelos de gestão para acompanhar as transformações tecnológicas, geopolíticas e climáticas.
Para o especialista, a neoindustrialização vai além de retomar a produção: exige inovação, novas competências tecnológicas e colaboração entre empresas. Marson também destacou o potencial brasileiro em energias renováveis e a importância de transformar recursos naturais em desenvolvimento, com conhecimento, tecnologia e lideranças preparadas para o futuro.
ENAJI inaugura nova fase e anuncia sede de 2027
O encerramento do ENAJI 2026 foi marcado pela emoção e pelo compromisso de fortalecer a indústria brasileira por meio da integração de novas lideranças. O presidente do Sistema FIERN, Roberto Serquiz, destacou que a troca de experiências e o compartilhamento de conhecimento são essenciais para preparar empresários e sucessores para os desafios da neoindustrialização. “Essa ligação entre as lideranças fortalece a preparação de todos e aumenta a eficiência e a competitividade da indústria”, ressaltou.
Anfitrião do encontro, Djalma Júnior, presidente da FIERN Jovem, celebrou a realização do evento no Rio Grande do Norte e o trabalho coletivo que tornou a edição possível. “Conhecimento tem que ser ensinado, conhecimento é para compartilhar. Talvez esse seja o maior propósito desse movimento nacional: a integração dos estados e a troca de experiências”, afirmou Djalma.
A presidente do Fórum Nacional dos Novos Líderes da Indústria, Diana Castro, destacou o legado de conexões e aprendizados construído ao longo dos três dias. O encontro reuniu representantes de 17 estados, enquanto o fórum já alcança 50 membros e 25 federações das indústrias. “A gente vai sair daqui melhor do que chegou, mais conectado, mais preparado e mais consciente do papel que temos na construção do futuro da indústria brasileira”, declarou Diana.
Diana também anunciou uma nova fase para o movimento: a partir de 2027, o evento passa a se chamar Encontro Nacional das Novas Lideranças Industriais. “Não estamos aqui apenas para observar as transformações acontecerem, estamos aqui para liderar as transformações”, enfatizou.
A próxima edição será realizada em Cuiabá no Mato Grosso, sob organização da Federação das Indústrias do Estado do Mato Grosso (FIEMT). Representando o conselho de novas lideranças da federação, Thayla Trentin convidou os participantes a dar continuidade à mobilização nacional.
Natal se despede do encontro, mas o movimento segue com o propósito de conectar lideranças e construir, coletivamente, o futuro da indústria brasileira.



