NATAL (RN) - De onde virá a indústria que vai liderar o Brasil nos próximos anos? Essa foi a pergunta que ganhou espaço nesta quinta-feira (8), durante o VII Encontro Nacional de Jovens Industriais (ENAJI) 2026. O segundo dia de programação marcou a abertura oficial do evento e colocou novas lideranças do setor produtivo no centro de discussões sobre os caminhos da indústria brasileira diante das transformações econômicas, tecnológicas e geopolíticas.
O presidente da FIERN Jovem, Djalma Júnior, destacou em sua fala durante a abertura que o ENAJI foi pensado para aproximar novas lideranças, estimular a troca de experiências e ampliar a visão sobre os desafios do setor produtivo.
“Reunir novas lideranças de diferentes partes do Brasil é juntar experiências, ideias, desafios e, principalmente, vontade de transformar. Preparamos estes dias com muito cuidado, com conteúdos relevantes, discussões atuais e momentos pensados para causar novos insights e ampliar nossa visão sobre os caminhos da indústria”, afirmou Djalma.
A conexão entre diferentes gerações também esteve no centro da fala da superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), Sarah Saldanha. Para ela, a transformação da indústria passa pela capacidade de unir conhecimento acumulado e novas perspectivas.
“Precisamos avançar na discussão sobre continuidade dos negócios, sobre como vamos preparar a indústria brasileira para essa nova governança, mas, principalmente, sobre como vamos fortalecer a ponte entre a experiência e o legado e a ousadia do novo”, explicou.
Sarah ressaltou ainda que a sucessão não deve ser vista como um conflito entre gerações, mas como uma oportunidade de construir novos modelos de liderança e fortalecer a continuidade dos negócios. “Quando me dizem que há um conflito entre duas gerações, eu digo que há, na verdade, uma grande oportunidade e um paradigma que nós, juntos, precisamos reconstruir”, pontuou.
A visão foi reforçada pelo presidente do Sistema FIERN, Roberto Serquiz, que destacou o papel que as novas lideranças já desempenham na indústria brasileira.
“Diante de tudo isso, precisamos de uma nova geração de líderes preparada para compreender exatamente essas mudanças, para questionar, inovar, propor e, sobretudo, transformar. Esse é o propósito maior deste encontro: aprimorar a eficiência e a capacidade de atuação das novas lideranças”, afirmou.
Também participou da abertura o diretor de Operações do Sebrae-RN, Marcelo Toscano, que representou o Sebrae Nacional. Ao destacar a sessão de negócios realizada na programação do ENAJI na tarde do dia 7, ele reforçou a importância da aproximação entre empresas de diferentes portes. “O desenvolvimento da indústria passa pela inovação, pelo empreendedorismo e pela conexão entre os pequenos e os grandes negócios”, disse.
Geopolítica exige visão além dos muros da fábrica
A programação avançou para um dos temas que mais impactam as decisões empresariais atualmente: a geopolítica. Os professores Gilmar Mendes e Valdemar Barros Filho, da Fundação Dom Cabral, apresentaram diferentes perspectivas sobre as transformações que redesenham a economia mundial e os impactos desse movimento para o Brasil.
Valdemar Barros Filho destacou que o atual momento é marcado por mudanças estruturais aceleradas e que cabe às lideranças identificarem o que representa uma transformação efetiva e o que é apenas ruído.
“Nós precisamos identificar as oportunidades estruturais para que possamos fazer diferença na nossa atuação, promover as transformações necessárias para a sociedade. Vivenciamos, no último século, um século de competição. Estamos vivenciando este século como um século de colaboração”, afirmou o professor.
A partir de uma leitura histórica das transformações que moldaram a ordem econômica mundial, Gilmar Mendes relacionou, em sua palestra, os movimentos geopolíticos atuais às oportunidades que podem se abrir para o país. Segundo ele, o Brasil vive um momento de potencial ampliação de sua participação nas cadeias globais de valor, impulsionado por recursos naturais, matriz energética e capacidade produtiva.
“Pela primeira vez, diante das grandes mudanças geopolíticas do mundo, estamos do lado certo. Estamos falando de oportunidades para o Brasil, e precisamos compreender que esse movimento não é uma repetição do passado: é algo novo que já está acontecendo”, afirmou.
Para as novas lideranças reunidas no ENAJI, o debate amplia a compreensão de que decisões industriais não estão restritas ao chão de fábrica. Mudanças nas relações comerciais, nos fluxos de investimento, na tecnologia e nas cadeias globais de produção também passam a fazer parte da agenda de quem estará à frente das empresas nos próximos anos.
Sucessão familiar coloca pessoas no centro dos negócios
A programação da manhã também trouxe para o centro do debate um dos desafios mais presentes entre empresas familiares: a sucessão. Na palestra magna sobre o tema, o executivo Pedro Lima, da indústria 3 Corações, compartilhou experiências sobre gestão, empreendedorismo e os desafios de conduzir um negócio familiar ao longo das gerações.
Fundado em 1959, no município de São Miguel, no Rio Grande do Norte, o Grupo 3 Corações tornou-se um dos principais nomes da indústria cafeeira brasileira. Sua trajetória é marcada pelo empreendedorismo familiar, pela expansão dos negócios e pela modernização industrial.
Ao abordar a trajetória da empresa e os aprendizados acumulados durante sua atuação, Pedro destacou e envolveu o público com sua fala sobre a importância do ser humano para a construção dos resultados e para a continuidade dos negócios.
“Nós entendemos que as pessoas fazem a diferença no negócio. Espero que, quando terminar essa conversa, eu possa ter deixado alguma coisa que ajude vocês e suas famílias no negócio que empreendem e na jornada de vida de vocês”, afirmou.
A discussão dialogou diretamente com a proposta do ENAJI de aproximar experiência e renovação. Mais do que preparar sucessores para assumir posições de comando, o encontro busca ampliar a capacidade dessas novas lideranças de compreender os negócios, tomar decisões e conduzir processos de transformação.
Visitas técnicas levam novas lideranças para dentro das fábricas
Se o futuro da indústria é discutido nos palcos, ele também pode ser observado de perto dentro das fábricas. No período da tarde, cerca de 320 participantes seguiram para visitas técnicas a dez indústrias potiguares, em uma programação voltada ao contato direto com diferentes modelos de produção, inovação, gestão e empreendedorismo.
A agenda incluiu as fábricas 3 Corações, Loucos por Coxinha, Guararapes, ISI-ER, Instituto Metrópole Digital, Recicla, Sadio Alimentos, Produmar, Bonor e Vicunha. Divididos em grupos, os participantes puderam conhecer operações de diferentes segmentos e observar, na prática, estratégias adotadas pelas empresas para enfrentar desafios de produtividade, inovação e competitividade.
A experiência aproximou os participantes de realidades industriais distintas e transformou a visita técnica em uma extensão dos debates realizados durante a manhã. Para as novas lideranças, observar processos, conversar com profissionais e conhecer soluções aplicadas no cotidiano das empresas representa uma oportunidade de levar novos referenciais para seus próprios negócios.
A maior indústria têxtil da América Latina está aqui!
Um dos grupos, formado por cerca de 20 novos industriais, visitou a Guararapes, indústria pertencente ao grupo Riachuelo e considerada a maior indústria têxtil da América Latina. A equipe da Confederação Nacional da Indústria (CNI) acompanhou a visita e conheceu de perto a estrutura da operação, que reúne diferentes etapas da cadeia produtiva em uma área de mais de 200 mil metros quadrados.
A história da Guararapes começou em 1960, em Natal. Em 1981, a operação foi transferida para Extremoz, na região metropolitana da capital potiguar. Atualmente, a unidade conta com cerca de 10 mil funcionários ativos e concentra processos que vão da produção do fio à distribuição das peças.
A dimensão da operação chamou a atenção dos participantes. A indústria produz mais de 150 mil peças por dia, distribuídas para cerca de 450 lojas em todo o país. Cerca de 60% do vestuário comercializado pela Riachuelo é produzido na unidade, que reúne 11 galpões e mantém alguns de seus processos produtivos que funcionam 24 horas por dia.
Na malharia circular, são produzidas aproximadamente 20 toneladas de malha por diae o processo também conta com cortes automatizados. A estrutura ainda contempla iniciativas de reaproveitamento de resíduos e integração de diferentes etapas da produção em uma mesma operação.
A experiência permitiu aos novos industriais enxergarem, em escala, como decisões de gestão, tecnologia, produtividade e sustentabilidade se conectam dentro de uma grande operação. Para quem atua ou pretende atuar na indústria da moda, a visita também serviu como referência prática sobre os desafios e as possibilidades de uma cadeia produtiva bem estruturada.
Para a empresária Duda Silveira, do Universo UP, empresa mineira do segmento de vestuário feminino casual, conhecer a operação ampliou a percepção sobre os processos que estão por trás de um produto que chega ao consumidor.
“Foi uma experiência única. Aqui vemos uma indústria com produção totalmente verticalizada, e isso é muito rico para quem vem ver, principalmente para a gente que também faz parte da indústria e que é do ramo de confecção”, destacou.
A visita à Guararapes mostrou, na prática, que inovação industrial também está relacionada à capacidade de integrar processos, pessoas, tecnologia e escala. Para as novas lideranças, sair do ambiente de palestras e entrar no chão de fábrica trouxe uma perspectiva concreta sobre como diferentes escolhas estratégicas podem transformar a competitividade de uma empresa.
Enquanto um grupo conhecia de perto a cadeia têxtil da Guararapes, outros participantes acompanhavam as operações das demais empresas da programação. A diversidade dos destinos permitiu que o ENAJI apresentasse diferentes faces da indústria potiguar — da alimentação à tecnologia, da reciclagem à produção têxtil — e reforçasse uma das principais propostas do encontro: formar novas lideranças a partir da troca, da experiência e do contato direto com quem já transforma a indústria brasileira.
É nesse encontro entre legado, conhecimento e novas ideias que se desenha a próxima geração de líderes do setor produtivo.




