Além do agro: indústria em Goiás ganha força com TI e biotecnologia

Com uma agroindústria e um polo farmacêutico consolidados, o estado vê a multiplicação de startups nas áreas de tecnologia da informação, biologia, química e genética

Foto: Divulgação/Secom Goiás

Que Goiás é referência em agroindústria, todo mundo sabe. O que nem todo mundo sabe é que o estado tem o 2º maior polo farmacêutico do país, com mais de 20 indústrias, e é solo fértil para startups da área de Tecnologia da Informação (TI) e de biotecnologia.  

A Jornada Nacional de Inovação da Indústria, evento itinerante do movimento Juntos pela Indústria, que reúne a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), está percorrendo todo o país para traçar desafios, propostas e inovações de cada estado. 

Na quinta-feira (30), em Goiânia, acontece o segundo encontro regional da Jornada, do Centro-Oeste, que vai reunir Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Para cada unidade da federação, a Agência de Notícias da Indústria está publicando uma matéria para contar um pouco mais sobre o ecossistema do estado. Já trouxemos um panorama sobre RS, SC e PR e agora é a hora de conhecer o Centro-Oeste. 

Agroindústria cresce e diversifica negócio com reaproveitamento de resíduos 

Goiás viu, nos últimos anos, a produção de soja, milho, cana-de-açúcar e carne bovina se modernizar. Dois exemplos são o Grupo Cereal e a Cooperativa Comigo, com mais de quatro décadas de trajetória.

No Grupo Cereal, a principal estratégia de crescimento foi a diversificação do portfólio, que vai de commodities, como a soja, até nutrição animal, armazenagem, transporte e biodiesel - ao verticalizar o negócio, a empresa desenvolveu métodos para transformar todo o óleo degomado produzido na indústria em biodiesel. 

Além disso, o grupo produz e comercializa 25 mil toneladas de adubo de resíduos orgânicos provenientes do armazenamento de grãos, da fabricação de farelo de soja, das cinzas da caldeira e das atividades de suinocultura e bovinocultura.

Já a Cooperativa Comigo foi pioneira no plantio de eucalipto: hoje são 7 mil hectares de área para reflorestamento, sendo 5 mil de efetivo plantio de eucalipto, de onde são extraídos 250 mil m³ de lenha/ano, destinados ao complexo industrial. 

Biopolímero desenvolvido por deep tech pode ajudar tratamento do câncer 

E quando a potência do agro se alia à biotecnologia? Os resultados são tão promissores que extrapolam o campo e chegam à área da saúde. A BioUs criou um biopolímero de resíduos da aquicultura e da agroindústria que pode, em um primeiro momento, substituir plásticos convencionais, em embalagens (frascos, tampas, filmes e rótulos) para alimentos, peças estruturais, itens descartáveis, sacos e sacolas, entre outros. 

Outro uso que está sendo pesquisado é em seres humanos e animais, já que o biopolímero é atóxico e tem alto índice de biocompatibilidade com tecidos vivos, podendo ser útil até no tratamento do câncer.

Isso porque as aplicações vão de cápsulas gelatinosas para medicamentos, fios para suturas, pinos cirúrgicos, enxertos ósseos, escovas cirúrgicas e drenos até tecidos cirúrgicos e válvulas cardíacas. 

Também considerada uma deep tech de biotecnologia, a Nanoterra se especializou em produtos e serviços para a cadeia de cosméticos. Já recebeu vários prêmios e passou por diferentes programas de aceleração.  

Sensores, inteligência artificial e data center 

Criadas no Campo Lab, da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG), a Implem.Conect e a Hidrobovino desenvolveram um sensor inteligente para manuteção de equipamentos agrícolos e um filtro para limpeza sustentável da água utilizada por rebanhos. 

Já, na área de tecnologia da informação e comunicação, a Predict IA utiliza inteligência artificial para prever o nº de casos de arboviroses (dengue, zika e Chikungunya) e para avaliar a conformidade de cosméticos sem testes em animais.

E o data center da Everest, com sede em Goiânia, se diferencia pela certificação que permite atividades de manutenção, reparo, acréscimo ou remoção de elementos, testes de itens e sistemas sem interromper a operação. A estrutura é reconhecida ainda como data center verde, por operar 100% com energia renovável certificada e sem uso de água na climatização.

Conheça as empresas e inovações de Goiás mapeadas na Jornada de Inovação da Indústria 

Grupo Cereal  

Uma das maiores agroindústrias do país nasceu em 1981 em Rio Verde com a missão de oferecer suporte ao produtor rural em diferentes etapas da cadeia produtiva. Hoje, estão presentes em GO, TO, MT, MS, MG e SP com um complexo industrial para esmagamento de soja (produção de farelo e óleo degomado) e nutrição animal (rações, proteinados e sais minerais). Também fornecem insumos agrícolas (barter) para o plantio, produzem adubo e biodiesel e têm 10 unidades armazenadoras, além de transportadora própria para distribuição no mercado interno e externo. 

Comigo 

A cooperativa fundada por 50 produtores rurais de Rio Verde em 1975 está, atualmente, em mais 18 municípios com lojas agropecuárias, produção de suplementos minerais e unidades armazenadoras. O grupo mantém o modelo cooperativista para fornecer aos mais de 11 mil cooperados defensivos, fertilizantes, sementes, peças, máquinas e equipamentos agrícolas, rações, suplementos minerais e produtos veterinários. 

Implem.Conect 

A startup atua com manutenção preventiva de equipamentos agrícolas, garantindo que eles funcionem de forma eficiente e ininterrupta. Além de otimizar a produtividade no campo, as soluções reduzem custos e tempo de parada. O principal produto é o AgriSen, sensor de alta tecnologia que monitora a operação e calcula o momento ideal para manutenção. 

HidroBovino 

O projeto da Hidrobovino começou no final do ano passado, no Campo Lab da FAEG, para solucionar um problema de desperdício de água: hoje, os bebedouros de rebanhos são limpos com a retirada completa da água. Eles desenvolveram então um filtro, que reduz o desperdício por meio da filtragem (e não descarte da água) e mede parâmetros como o pH.

Everest Digital 

O Everest é o primeiro data center do Centro-Oeste com certificações relevantes como Tier III Managed Service Provider (MSP), de não interrupção das operações; LEED Gold, de construção sustentável; e ISO/IEC 27001, de segurança da informação. Desenvolvem soluções de Tecnologia da Informação (TI) para clientes públicos e privados, não só em Goiânia, onde está o data center, mas também no RS, PR, SP, RJ, DF, CE, Santiago (Chile), Bogotá (Colômbia) e Querétero (México) por meio de parcerias.  

Predict AI  

As soluções personalizadas em Inteligência Artificial e Ciência de Dados desenvolvidas pela Predict AI têm aplicação nos setores da saúde e na indústria. Alguns exemplos são uso de visão computacional para detectar possíveis criadouros do mosquito Aedes aegypti; GPTs personalizados para empresas, que são modelos de predição de linguagem que possibilitam criar conteúdo a partir de um comando; e IA para desenvolvimento de fórmulas exclusivas de cosméticos.   

Dectra Solar 

A startup, que nasceu de um projeto no Instituto Federal de Goiás em 2021, faz inspeção de painéis solares com uso de drones e Inteligência Artificial. Ao monitorar e identificar defeitos em 14 usinas, que somam mais de 56 mil painéis solares, a empresa poupa 29.9 Megawatt-pico (MWp). 

IndustryCare

Com soluções de hardware e software, a IndustryCare atua na transformação digital de indústrias por meio de medidores, sensores e Internet das Coisas (IoTs) e uma ferramenta de Big Data Analytics, que integra e organiza os dados de consumo, produção e processos, ajudando a detectar ineficiências e reduzir emissões de gases de efeito estufa. Hoje, a empresa atende empresas como Vale, CSN, Anglo American e Danone.

BioUs

A deeptech fundada em 2022 começou com o desenvolvimento de biopolímeros (bioplástico) e probióticos a partir de resíduos da produção intensiva da aquicultura e da agroindústria com o uso de leveduras e “bactérias do bem”. Foi então criada uma nanocápsula, biodegradável e biocompatível, para entrega de compostos ativos, com potencial de revolucionar o diagnóstico e o tratamento do câncer. Isso porque ela permite a entrega precisa de medicamentos diretamente às células cancerígenas, minimizando os efeitos colaterais e aumentando a eficácia da terapia.  

Nanoterra 

A deeptech utiliza nanotecnologia para desenvolver matérias-primas exclusivas a partir da biodiversidade brasileira e ajudar indústrias no desenvolvimento de cosméticos, cruelty-free, veganos e sustentáveis. 

Teuto

Fundada em 1947 por um alemão em São Paulo, o Laboratório Teuto Brasileiro transferiu toda sua operação para Anápolis em 1986, depois de ter sido comprado por dois empresários brasileiros. Hoje, a companhia tem mais de 540 produtos registrados entre medicamentos, genéricos, medicamentos isentos de prescrição (MIP’s), suplementos alimentares e cosméticos.

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