Se o melhor é unir Indústria e Fazenda, trabalharemos juntos, diz presidente da CNI, Robson Braga de Andrade

Presidente da CNI afirma que respeita decisão de criar superministério. A entrevista foi publicada nesta quinta-feira (8), no jornal Folha de S. Paulo
Robson Braga de Andrade é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Confira a entrevista do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, ao jornal Folha de S. Paulo.

FOLHA DE S. PAULO - Quais são suas expectativas em relação ao novo governo?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Muito positivas. É um governo com apoio popular grande, uma bancada importante na Câmara dos Deputados, e há pessoas corretas e bem conceituadas tecnicamente. Mesmo sabendo da dificuldade do Brasil para voltar a crescer, porque nem tudo depende só do governo, a expectativa é que ele vai ter um capital político importante para fazer as mudanças necessárias.

FOLHA DE S. PAULO - O sr. já se manifestou contrário ao fim do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Pode explicar melhor essa posição?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - A indústria está sendo fortalecida pelos governos ao redor do mundo por sua importância na arrecadação, na geração de empregos. Nos EUA, o governo Donald Trump fortaleceu o Departamento de Comércio, que é quem cuida dos assuntos industriais por lá. Meu receio é colocar um departamento de indústria dentro da mesma estrutura que vai cuidar de arrecadação, política tributária e fiscal. Defendo essa posição de forma transparente, mas, como já disse a pessoas do próximo governo, a partir do momento em que o presidente disser que "vai ser assim", vamos trabalhar da forma que o governo vai conduzir.

FOLHA DE S. PAULO - O senhor está mudando de posição?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Não. Nossa posição é trabalhar para que a indústria brasileira possa crescer, desenvolver e ajudar o Brasil a mudar de patamar. Todas as propostas que fizemos durante a campanha eleitoral e depois para o presidente Bolsonaro foram: estamos aqui para contribuir e ajudar.

Mas é claro que respeitamos a decisão do presidente. Se ele disser que a estrutura de governo necessária para fazer o que pretende é juntar os ministérios da Indústria e da Fazenda, eu vou trabalhar junto com ele. Apesar de continuar achando que fosse melhor que estivesse separado.

FOLHA DE S. PAULO - A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN) soltou nota a favor da criação do superministério da Economia. Há divergência na indústria?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Teve até um mal-entendido nessa nota. Eles falam que menos de 10% dos países do mundo têm um Ministério da Fazenda separado do Planejamento, o que é verdade. Mas, normalmente, nos maiores países, os departamentos de indústria e comércio estão separados. Essa é a posição do Eduardo Eugênio [presidente da Firjan] e, claro, temos divergências. Acredito que fortalecer a indústria é incentivar o desenvolvimento do Brasil. Não há país forte sem indústria forte.

FOLHA DE S. PAULO - O sr. considera que Paulo Guedes, conhecido por sua visão liberal da economia, é uma pessoa adequada para defender as questões da indústria?

O ponto não é ter uma formação liberal. O que queremos é um governo liberal. Não queremos um governo centralizador, com uma participação elevada na economia, até porque a concentração de poder na mão do Estado gera questões éticas. Portanto, um governo que incentive o desenvolvimento de empreendedores é o que nós queremos. E Guedes tem colocado de maneira clara que quer tirar as amarras do desenvolvimento para que o país possa crescer.

Se ele tiver um olhar mais firme na direção da indústria do que apenas fiscal e tributário, nós vamos gostar muito. Temos ouvido muitas declarações sobre a reforma da Previdência, mas não temos ainda - até porque está cedo - definição sobre política industrial e de comércio exterior.

Outra crítica do novo governo é em relação ao Sistema S. Não falo pelo sistema S, porque represento apenas o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) . Temos 100% de transparência das contas dessas instituições: número de escolas, vagas, alunos, profissionais, nível de remuneração, contratos, licitações, julgamentos do TCU. Enfim, tudo. Às vezes, existem dúvidas porque temos um orçamento cruzado: 60% da receita total entra no Departamento Nacional e uma parcela volta para os estados, em proporção maior para aqueles com menos arrecadação do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste.

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