Democratização do acesso à internet: 5 perguntas para Preto Zezé

Presidente da Central Única das Favelas (CUFA) acredita que a diminuição da desigualdade passa pela internet de qualidade a preço justo

Preto Zezé é parceiro do movimento Antene-se, criado para incentivar a atualização das leis de antenas das grandes cidades brasileiras

Fundada em 1998 no Rio de Janeiro, a Central Única das Favelas (CUFA) atua no desenvolvimento de ações humanitárias e de melhoria da qualidade de vida em favelas de todas as regiões do Brasil. O presidente da CUFA, Preto Zezé, conversou com a Revista Indústria Brasileira sobre a urgência de democratizar o acesso à internet.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Por que as favelas ainda não são vistas como espaços estratégicos para o investimento em conectividade?

PRETO ZEZÉ - Por causa de questões estruturais e de legislação. Não tem como atender a uma série de requisitos técnicos da legislação, como distância e titularidade dos imóveis, algo que não existe nas favelas. Elas são organizadas de acordo com a demanda e a necessidade de moradia, e não com planejamento antecipado.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Como a internet de qualidade pode interferir na vida de quem vive nas favelas?

PRETO ZEZÉ - A internet pode intervir em vários aspectos da qualidade de vida das pessoas que vivem nas favelas. Na parte da comunicação, na parte da produção cultural, na economia criativa, no acesso aos serviços públicos, aos meios de transporte, à  telemedicina, aos serviços de entrega, de venda… Existe toda uma gama de coisas importantes [que seriam possíveis] se a internet fosse democratizada e acessada de forma igual no país.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Qual é a importância de as grandes cidades brasileiras terem regras de ocupação de solo que permitam a instalação de antenas em áreas de comunidades?

PRETO ZEZÉ - É importantíssimo, porque define, inclusive, quem tem ou não acesso à internet. Sem as antenas, não vai ter internet. Seria legal que a instalação delas e a elaboração das leis fossem pensadas com os moradores de favela… que eles não fossem só receptores, mas que também pudessem pensar na elaboração de programas, projetos e ações.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Por que é preciso assegurar o acesso à rede de alta velocidade a parcelas carentes da população brasileira?

PRETO ZEZÉ - A importância de as favelas terem internet de alta velocidade é a democratização, a possibilidade de ter acesso com velocidade boa e com preço justo. Pagamos um preço exorbitante na internet, seja aquela que leva o cabo até a nossa casa ou a que acessamos por meio dos celulares e outros aparelhos móveis. A velocidade é muito ruim, deixa muito a desejar. Se comparar a velocidade da internet e fizer um paralelo com o preço praticado em outros países, veremos que o Brasil oferece um serviço bem precário por um valor bem alto.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Em que medida a desigualdade no acesso à rede de alta qualidade pode intensificar as desigualdades socioeconômicas brasileiras?

PRETO ZEZÉ - Se não conseguirmos solucionar o problema da desigualdade de acesso à internet de alta qualidade, as outras desigualdades tendem a aumentar. O acesso à internet pode, sim, ser desdobrado em outras agendas econômicas de empreendedorismo e de negócios. Dessa forma, a gente vai poder forjar uma economia digital na base da pirâmide.

CUFA além das cestas básicas

A organização é reconhecida nacional e internacionalmente por iniciativas como o CUFA Contra o Vírus – que distribuiu cestas básicas durante a atual pandemia de Covid-19 – e o Mães da Favela, que fornece uma bolsa-auxílio para mães solo moradoras de comunidades carentes.

O que pouca gente sabe é que a Central Única das Favelas também possui projetos significativos nas áreas de geração de renda e empreendedorismo.

Em fevereiro de 2022, por exemplo, a organização lançou o Favelas Fundos, uma aplicação de venture capital que investirá R$ 50 milhões para impulsionar empreendedores e startups originadas em favelas de todo o país. O objetivo é acelerar negócios dos mais variados segmentos, como logística, gastronomia, saúde, marketing e tecnologia.

Além disso, a CUFA e o Favela Holding – grupo com mais de 20 empresas voltadas para o desenvolvimento empreendedor das comunidades e de seus moradores – realizaram, entre os dias 15 e 17 de abril de 2022, em São Paulo, a 1ª edição da Expo Favela. A feira contou com cerca de 300 expositores, que tiveram a oportunidade de se conectar com potenciais investidores para seus projetos.

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