Infraestrutura logística eficiente não é benefício para poucos

Em artigo publicado no jornal O Liberal, Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Pará, analisa a importância do investimento em logística integrada no país

Foto: Banco de Mídia da Indústria/CNI

O debate recente sobre a dragagem do Rio Tapajós se insere em um tema ainda mais amplo e estratégico: a necessidade urgente de investir em infraestrutura logística integrada, capaz de garantir a conexão intermodal no Arco Norte.

Um sistema que envolve hidrovias, ferrovias e rodovias, de lógica complementar. Sem isso, o país continuará penalizando sua produção com altos custos logísticos, gargalos estruturais e perda de competitividade internacional.

Nesse contexto, buscamos a manifestação do professor doutor Hito Braga, diretor-geral do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (ITEC/UFPA) e especialista em dragagem, cujo estudo qualifica, de forma objetiva e responsável, a discussão sobre os benefícios da dragagem no Rio Tapajós.

De acordo com o documento, o assoreamento é um processo natural dos sistemas fluviais, frequentemente intensificado por ações antrópicas, como desmatamento, erosão do solo e ocupação irregular das margens. Quando não administrado adequadamente, surgem consequências graves: redução da profundidade do rio, aumento do risco de cheias, piora da circulação da água e comprometimento da navegação.

Assim, a dragagem passa a ser ferramenta de gestão ambiental, segurança hidráulica e navegação. Atividade rigorosamente licenciada no Brasil, seguindo normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelece critérios técnicos para caracterização e destinação do material dragado. Em muitos casos, a não realização da dragagem pode gerar impactos ambientais ainda mais severos, como enchentes, degradação da qualidade da água e perda da funcionalidade do ecossistema.

Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) demonstram a eficiência do transporte hidroviário: um supercomboio com 35 barcaças pode transportar até 70 mil toneladas de carga. Já um trem com 120 vagões transporta cerca de 11.500 t; um caminhão comum, em média, 40 t.

E mais. O sistema hidroviário consome aproximadamente 66% do combustível utilizado pelo modal ferroviário, e 26% do transporte rodoviário. Portanto, o modal  com menor pegada de carbono.

Mas a política nacional de investimentos em infraestrutura continua reproduzindo uma lógica de concentração regional. Prioriza corredores consolidados do Sudeste e do Sul, enquanto o Norte — responsável por parcela significativa da produção que sustenta o saldo positivo da balança comercial brasileira — permanece à margem.

A escolha não é neutra. É a cruel naturalização do chamado “custo Amazônia”, como se fosse uma fatalidade geográfica, e não resultado direto de decisões políticas. A pergunta é: a quem interessa manter o Norte caro, ineficiente e logisticamente dependente? Quem se beneficia quando a produção amazônica perde competitividade e o país insiste em escoar riquezas por corredores mais longos, caros e poluentes?

Os eixos Tapajós e Tocantins estão entre os corredores mais competitivos do país, mas enfrentam riscos estruturais crescentes diante da ausência de obras essenciais, como a Ferrogrão, a concessão das hidrovias e o derrocamento do Pedral do Lourenço. Não se trata de pedir privilégios, mas exigir equilíbrio federativo, racionalidade econômica e coerência estratégica. Um país que pretende ser protagonista global não pode aceitar que o Norte permaneça condenado ao subdesenvolvimento logístico.

Não é apenas uma decisão de infraestrutura — é uma decisão política, econômica e histórica sobre que país queremos ser e para quem o desenvolvimento continuará sendo direcionado.

* Alex Carvalho é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA).

O artigo foi publicado no jornal O Liberal, no dia 3 de fevereiro de 2026.

REPRODUÇÃO DO ARTIGO - Os artigos publicados pela Agência de Notícias da Indústria têm entre 4 e 5 mil caracteres e podem ser reproduzidos na íntegra ou parcialmente, desde que a fonte seja citada. Possíveis alterações para veiculação devem ser consultadas, previamente.

Relacionadas

Leia mais

Conselho de Infraestrutura da CNI debate integração logística do Arco Leste
Conselho de Infraestrutura debate tabelamento de frete e agenda do setor elétrico para 2026
Logística e juros travam competitividade das exportações brasileiras, aponta CNI

Comentários