Defender o equilíbrio entre trabalho, descanso, saúde e vida familiar é defender a dignidade de quem trabalha. Não sou contra a flexibilização da escala. E nem poderia ser porque se trata de uma conquista da Reforma Trabalhista, onde o acordado prevalece sobre o legislado, atendendo às mais diversas configurações das atividades produtivas. Mas exatamente por compreender a importância do tema, defendo uma análise com racionalidade.
Estava pensando no assunto e lembrei da fala de meu pai, que respondia aos pedidos de dinheiro dos filhos sempre com a seguinte frase: “Aproveita enquanto o Brás é tesoureiro!”. Ali, ele nos alertava sobre a chance de ter a quem recorrer na hora do aperto, e que aquilo não duraria para sempre. Por que fiz tal alusão? Bem, me parece que nosso Brasil tem sido o Brás. Um país fadado a pagar a conta de manobras tendenciosas e narrativas apelativas de determinados grupos –como tem sido a discussão atabalhoada sobre a redução da jornada de trabalho. E quando falo de nação, falo de todos nós, brasileiros.
Temos visto uma corrida de acordos, supostas análises do contexto e uma verdadeira avalanche marketeira em relação à alteração na escala e jornada de trabalho, sem pesar na balança quem vai pagar por isso. Nós do setor produtivo temos insistido que uma mudança dessa dimensão vai impactar empresas de todos os portes e setores e, certamente, criar um efeito contrário justamente para o suposto beneficiado, o cidadão.
Se o custo com pessoal subir de forma abrupta, para suprir a mudança nos turnos de trabalho, parte das empresas poderá optar pela redução de postos formais. Ou seja, teremos mais brasileiros sem amparo legal inclusive para descanso semanal remunerado, e também férias, 13º salário, FGTS, proteção previdenciária, etc.
É preciso lembrar que o trabalho formal não é apenas uma relação de empresa com empregado. Ele sustenta uma rede de proteção social. Quando a formalidade enfraquece, enfraquecem também a Previdência, o FGTS, a arrecadação, a segurança jurídica e a capacidade do Estado de garantir políticas públicas.
O Brasil precisa avançar, sim, em qualidade de vida. Mas precisa avançar sem enfraquecer empresas, sem destruir empregos, sem estimular a informalidade e sem transformar uma pauta legítima em uma solução incompleta e inconsequente.
Há quem possa entender esse viés como algo distante, de médio e longo prazo. Tudo bem. Porém, lamento dizer, a promessa de uma vida mais tranquila apenas com a mudança na Lei, cai por terra quando olhamos para o bolso. O meu, o seu. Isso mesmo, de todos nós.
Com o aumento dos custos da produção, vem mais um efeito cascata pela frente: subirá a inflação, os preços, o custo de vida. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, na atual conjuntura, a redução da jornada poderá levar ao aumento médio de preços ao consumidor entre 6% e 8%. Além de pressionar especialmente pequenas e médias empresas, que têm menor capacidade de absorver custos de forma imediata.
Por isso, mais do que pressa, o Brasil precisa de responsabilidade. Mais do que discurso, precisa de análise técnica. Mais do que oposição ou adesão automática, precisa construir uma solução equilibrada, sustentável e compatível com a realidade econômica.
O caminho é o diálogo sem marcos temporais, como as eleições de outubro, servindo de baliza. É ouvir trabalhadores, empresas, sindicatos, especialistas e setores econômicos. É considerar as diferenças entre indústria, comércio, serviços, saúde, transporte, alimentação, turismo e tantas outras atividades que operam com jornadas, demandas e escalas distintas. É ter atenção, inclusive, às experiências de outros países que adotaram medidas semelhantes e que estão experimentando consequências as quais estou alertando como possíveis.
No final de todas as contas que precisamos e sempre precisaremos fazer, fica a pergunta: até quando nosso Brasil, ou melhor, até quando nós suportaremos ser o Brás, o tesoureiro, sem colapsar? Até quando rearranjos, muitas vezes, improvisados garantirão sobrevida ao que temos de estrutura hoje para seguir adiante? Até quando o tesoureiro conseguirá pagar a conta? Eis a questão...
*Alex Carvalho é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), do Fórum das Entidades Empresariais do Pará e do Conselho de Infraestrutura da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de vice-presidente da CBIC.
O artigo foi publicado no Poder360, no dia 14 de junho de 2026.
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