Como transformar metas de clima, conservação da natureza e produção em projetos financeiramente viáveis e capazes de atrair capital em escala global? Esse foi o principal questionamento dos painéis técnicos da Pré-COP31, realizada nesta quarta-feira (7), na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Com a moderação do vice-presidente da CNI, Marcelo Thomé, o painel “Agricultura, segurança alimentar e biodiversidade: mobilizando capital para negócios na nova economia”, discutiu como transformar prioridades de clima, natureza e agricultura em projetos e estratégias de investimento, reduzindo riscos da originação à escala.
O painel contou com contribuições do diretor global de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da MBRF, Paulo Pianez; da diretora de Sustentabilidade da JBS, Liege Correia e Silva; do gerente de Relações Institucionais da Suzano, Leonardo Mercante; da gerente de Relações Institucionais da Acelen, Maíra Peruzzo; e do CEO da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira.
Os debatedores ressaltaram que a tecnologia de baixo carbono já existe no campo, mas a transição em escala exige garantia de rentabilidade concreta ao produtor rural, expansão da regularização cadastral (CAR) aliada à assistência técnica contínua e a universalização do seguro rural como mecanismo essencial para mitigar riscos climáticos e destravar o crédito privado. No setor industrial, destacou-se ainda o potencial de combustíveis sustentáveis, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e a urgência de uma Taxonomia Sustentável estratégica para o mercado financeiro.
Já o presidente da FIEPA e do Conselho Temático de Infraestrutura da CNI, Alex Carvalho, esteve na moderação do painel Segurança energética e mineração: financiamento para uma transição justa que trouxe para o debate temas como acelerar a descarbonização, conciliando competitividade, segurança energética e desenvolvimento produtivo e a discussão do papel dos minerais críticos e da mineração responsável nas cadeias de valor da transição.
Participaram do painel o diretor de Relações Institucionais e Assuntos Associativos e diretor-presidente do IBRAM, Pablo Cesário; o diretor de Clima e Carbono da Vale, Rodrigo Lauria; o presidente da Samarco, Rodrigo Vilela; a gerente de Comunicação, Relações Institucionais e Sustentabilidade da Schneider Electric, Karolina Gutiez; e a CEO da Carbon Measures, Amy Brachio.
O setor destacou que não há transição ecológica global sem uma mineração sustentável, responsável por fornecer os minerais fundamentais para baterias, painéis solares e eletrificação. Para descarbonizar indústrias de base pesada, os líderes enfatizaram a necessidade de instrumentos de transition finance específicos para ativos de longa maturação, segurança jurídica regulatória e o aproveitamento da matriz elétrica limpa do Brasil como diferencial competitivo internacional.
Propostas da Indústria para a COP31 e lançamento do Pavilhão na Blue Zone
Na ocasião, o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, detalhou as diretrizes estratégicas do setor produtivo brasileiro rumo à COP31, que estarão no documento Visão da Indústria, que será publicado em breve, e anunciou o lançamento do Implementation Hub Pavilion, na Blue Zone, a Zona Azul da COP31.
A Zona Azul é o local das negociações e reuniões de alto nível da Conferência. Esse espaço é organizado pela UNFCCC e é restrito a líderes mundiais, negociadores, observadores, agências da ONU e imprensa credenciada.
A agenda apresentada por Bomtempo organiza as prioridades da indústria em eixos complementares:
- Adaptação e resiliência: Defesa de metodologias e indicadores globais aplicáveis à realidade produtiva e alinhados às políticas públicas nacionais.
- Financiamento climático: Necessidade de desburocratizar o acesso a fundos multilaterais e baratear o custo de capital, articulando instrumentos nacionais como Fundo Clima, EcoInvest e a plataforma BIP.
- Mitigação e transição energética: Manutenção do caráter não punitivo dos programas da ONU e valorização das rotas maduras de descarbonização do país, como os biocombustíveis e a bioenergia.
- Comércio internacional: Busca por equivalência regulatória para evitar que normas unilaterais (como CBAM e EUDR) se convertam em barreiras protecionistas contra produtos nacionais.
Saúde entra na agenda de adaptação climática
Na sessão sobre a agenda Clima e Saúde, o superintendente de Saúde do SESI, Emmanuel Lacerda, apresentou iniciativas que buscam preparar a indústria para os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões associadas à prestação de serviços de saúde. As ações são desenvolvidas em parceria com o Conselho Nacional do SESI, o Ministério da Saúde, empresas e outras instituições.
No eixo de adaptação, foram apresentados os protocolos de resposta a emergências climáticas, criados para orientar as empresas diante de eventos extremos. O SESI já lançou protocolos para inundações e para secas e queimadas e prepara um terceiro, sobre chuvas e tempestades, que será lançado na COP31, na Turquia. A estratégia inclui ainda um sistema de alertas de arboviroses que cruza dados epidemiológicos, climáticos e de concentração industrial.
Na frente de mitigação, o SESI apresentou a Calculadora de Descarbonização da Saúde, desenvolvida em parceria com a Sanofi. A ferramenta estima a pegada de carbono relacionada ao acesso aos serviços de saúde e permite comparar as alternativas como atendimento presencial, telemedicina, deslocamentos e diferentes formas de realização de exames.
A apresentação também trouxe a experiência da Expedição Copaíba, unidade fluvial de saúde conectada que atende trabalhadores de comunidades ribeirinhas da Amazônia com consultas, exames e acompanhamento multiprofissional, utilizando internet via satélite. A embarcação conta com um sistema híbrido de geração de energia e, segundo o SESI, pode reduzir em 33,1 toneladas de CO₂ equivalente por ano as emissões relacionadas à operação. Desde o início das atividades, a iniciativa já realizou 691 atendimentos médicos e mais de mil exames laboratoriais, além de ter solicitado cerca de 4 mil exames.
Durante o evento, o público teve ainda uma prévia do documentário sobre o projeto, com a exibição de um teaser da produção. O filme acompanha a experiência da embarcação e o atendimento às comunidades amazônicas e será lançado oficialmente durante a COP31, na Turquia, antes de chegar ao Brasil.
Cidades, mobilidade e infraestrutura resilientes
No painel sobre cidades, mobilidade e infraestrutura resilientes, o debate chamou a atenção para a necessidade de preparar territórios e infraestruturas antes da ocorrência de eventos extremos e de ampliar a capacidade de transformar projetos de adaptação em iniciativas financiáveis e escaláveis.
Na área de saneamento, a discussão apontou para uma mudança de perspectiva. Na ocasião, Andréa Häggsträm, diretora de Relações Institucionais da Aegea, afirmou que a infraestrutura básica, redes de água e esgoto passam a ter papel estratégico na adaptação climática, na segurança hídrica e na resiliência das cidades. Ela citou como exemplos as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, e um período de seca enfrentado no Piauí para mostrar como diferentes fenômenos já afetam a operação e o planejamento da infraestrutura.
A necessidade de integração entre diferentes áreas também apareceu como condição para tornar as cidades mais resilientes. O diretor de Cidades Resilientes da Arup, Dima Zogheib, destacou que transporte, água, energia, habitação e meio ambiente ainda costumam ser planejados de maneira separada, embora os impactos climáticos atravessem todos esses setores simultaneamente.
Segundo ele, o desafio não está necessariamente na ausência de projetos, mas na falta de integração e de uma visão mais ampla sobre os resultados que as intervenções urbanas devem produzir. A proposta é deslocar o foco de obras ou ativos isolados para soluções capazes de gerar os benefícios simultâneos em segurança, saúde, produtividade e qualidade de vida.
O debate tratou da descarbonização do transporte e da necessidade de criar condições para ampliar o uso de novas tecnologias. Priscila Rocha, líder de Sustentabilidade e ESG da Volkswagen, destacou o potencial brasileiro para combinar diferentes fontes de energia e soluções tecnológicas, especialmente no transporte de cargas e passageiros.
O uso de ferramentas digitais também apareceu como caminho para melhorar o planejamento urbano e antecipar riscos. Segundo, Nikolas Passos, chefe de Gabinete da ABDI, as tecnologias como gêmeos digitais e Building Information Modeling (BIM), permitem integrar dados e simular cenários relacionados à infraestrutura ao território e a eventos climáticos.
Entre os exemplos mencionados no painel está a aplicação de modelos digitais para avaliar como inundações poderiam afetar ativos financeiros e infraestruturas.
Patrocinadores
O evento é promovido pela CNI em correalização com o Conselho Nacional do SESI, com o apoio do Instituto Amazônia+21 e da Facility de Investimentos Sustentáveis, além do patrocínio da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Samarco, Aegea, MBRF, Vale, da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).






