Guerra provoca debate sobre posição do Brasil em cadeias estratégicas de suprimentos

Em reunião do Conselho Temático da Indústria de Defesa e Segurança da CNI, especialistas destacam que conflito no leste europeu amplia debate sobre segurança alimentar, energética, ambiental e cibernética

O impacto da guerra no abastecimento de commodities e produtos industrializados expôs vulnerabilidades do Brasil em um mercado globalizado. Esse cenário evidencia a necessidade de uma maior discussão e investimento no país em segurança nacional, segundo especialistas que participaram da reunião do Conselho Temático da Indústria de Defesa e Segurança (Condefesa) na última quarta-feira (30). 

“Damos ênfase ao conceito de defesa e deixamos de discutir segurança. A pandemia e agora a guerra impõem isso. Temos de discutir segurança alimentar, energética e do meio ambiente por conta da Amazônia”, afirmou Rubens Barbosa, que ocupou o cargo de embaixador do Brasil em Londres e em Washington e atualmente é presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior. 

Segurança cibernética é também uma área que demandará maior atenção do país, segundo o ex-embaixador.


“O Brasil precisa de um impulso maior, estamos entre os cinco países mais afetados por hackers. Temos de fazer o que o Biden (presidente dos Estados Unidos) fez: chamou as grandes empresas para compor um grupo de trabalho”, destacou Barbosa. 


A necessidade de o país resgatar o tema segurança nacional também foi reforçada pelo general Sérgio Etchegoyen, que foi ministro-chefe do Gabinete Institucional da Presidência da República. Ele acredita que o termo acabou sendo substituído por defesa nacional. “O Brasil precisa agora pensar em um grande guarda-chuva de segurança”, pontuou.

Impactos e oportunidades

Entre os setores que sofreram o impacto da guerra no Brasil destacam-se o setor agrícola, pela escassez de fertilizantes, com uma dependência de 20% aproximadamente de Rússia e Belarus, e do trigo, cuja importação responde por aproximadamente 60%. Outra área importante de vulnerabilidade apontada no debate é a fabricação de semicondutores. A pandemia de covid-19 também demonstrou a dependência brasileira no setor de saúde na produção de máscaras, respiradores e luvas, por exemplo.

Apesar dos desafios impostos pela guerra, o consultor do Centro de Defesa, Segurança e Espaço no SENAI CIMATEC, Milton José Deiró, abordou as oportunidades que podem surgir a partir do cenário de conflito, como o elevado número de refugiados ucranianos com formação para atuar na base industrial. “Podemos absorver os profissionais mais qualificados, principalmente da área espacial e de maquinário pesado”, destacou.

O evento contou ainda com a participação do diretor de Geopolítica e Conflitos do Instituto Sagres, general Luiz Eduardo Rocha Paiva; e do professor de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército, Hélio Caetano Farias, que abordaram o impacto da guerra na geopolítica global e reflexões sobre o posicionamento do Brasil nesse novo cenário.

A reunião, realizada em formato online, foi coordenada pelo presidente do Condefesa, Gláuco José Côrte, e mediada pelo diretor-adjunto do SENAI, Sérgio Moreira.

Sobre o Condefesa

Essa foi a 13ª reunião do Conselho Temático da Indústria de Defesa e Segurança (Condefesa) da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que é presidido por Glauco José Côrte, que também ocupa o cargo de vice-presidente executivo da instituição e foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC).

Os conselhos temáticos são órgãos consultivos da diretoria da CNI, formados por 30 representantes de Federações de Indústria e de Associações Nacionais Setoriais.

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