Sem amarras: empresas querem migrar para o mercado livre de energia

Pesquisa feita pela CNI sugere que mais de 40 mil indústrias poderão migrar para o mercado livre de energia em 2024

A energia elétrica ainda representa a principal fonte para 78% das indústrias brasileiras

Mais da metade das empresas de alta tensão que são obrigadas a comprar energia junto às concessionárias desejam migrar para o mercado livre a partir de 2024. É o que mostra pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizada em outubro de 2022 com 2.016 empresas, sendo 794 pequenas, 724 médias e 498 grandes indústrias.

Atualmente, cerca de 10 mil empresas industriais operam no modelo em que o consumidor negocia direta e livremente com as geradoras ou comercializadoras de energia. De acordo com a Sondagem Especial Indústria e Energia, 59% das grandes empresas obtêm fornecimento do mercado livre, sendo 52% exclusivamente desse mercado. Entre as indústrias de médio porte, 57% estão no sistema cativo, ante 25% que consomem energia exclusivamente via mercado livre. Já entre as pequenas empresas, 70% obtêm energia do mercado cativo e apenas 6% estão totalmente no mercado livre.

As indústrias que migrarem para o mercado livre economizarão, em média, de 15% a 20% na conta de luz, segundo estimativa da CNI. Uma portaria editada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) estabelece que as empresas de enquadramento tarifário de alta tensão poderão migrar para o mercado livre a partir de 1º de janeiro de 2024. “Este ano de 2023 será para estudar o mercado, planejar e fazer contas sobre a viabilidade de ingressar no mercado livre. Mais de 40 mil indústrias terão condições de migrar a partir de 2024”, afirma Roberto Wagner Pereira, especialista da CNI em Energia.

“Este ano de 2023 será para estudar o mercado, planejar e fazer contas sobre a viabilidade de ingressar no mercado livre”, explica Roberto Wagner Pereira (CNI)

Ele explica que, como os contratos no mercado livre são negociados bilateralmente, as empresas conseguem preços mais competitivos. “Você consegue um custo menor dessa energia, principalmente graças à competição entre os fornecedores e aos descontos das energias incentivadas”, diz. Segundo Pereira, há companhias interessadas em migrar para o mercado livre em todos os segmentos industriais, embora a disposição seja maior entre os grandes consumidores de energia.

Os números da sondagem mostram que, entre as grandes empresas, 59% afirmam que há possibilidade de migrar para o mercado livre. Entre as indústrias de médio porte, o índice vai a 61% e, entre as pequenas empresas, 48% indicam a possibilidade de migrar.

A energia elétrica é a principal fonte de energia para 78% das indústrias brasileiras, seguida por óleo diesel (4%), gás natural (4%), lenha (3%) e bagaço de cana (2%).

Entre as regiões brasileiras, o Sul apresentou maior percentual de empresas apontando a energia elétrica como a fonte principal (85%). Além disso, ela é a principal fonte de energia para 81% das pequenas empresas, 79% das empresas de médio porte e para 77% das grandes empresas.

Aumento dos custos

Nos últimos 12 meses, o aumento médio dos gastos com energia elétrica no custo total de produção das indústrias foi de cerca de 13%. Para 75% das empresas, esse aumento teve efeito relevante sobre suas despesas, sendo considerado um impacto médio ou alto para 40% das empresas ouvidas.

A pesquisa mostra, ainda, que as indústrias têm dado atenção a medidas voltadas à eficiência energética. A maioria (52%) passou a investir em máquinas mais eficientes. Entre as grandes empresas, esse percentual é maior – 63%. Já em relação às médias e às pequenas, os percentuais foram de 48% e 33%, respectivamente.

De acordo com os segmentos industriais, os investimentos em máquinas mais eficientes foram mais comuns entre as empresas da indústria extrativa (69%) e entre as da transformação (54%). Entre as empresas da indústria da construção, 31% afirmaram ter realizado investimento em máquinas mais eficientes.

“Mais de 30% do consumo [de energia no Brasil] já está no mercado livre, e o principal motivo é a busca pela estabilidade de custos”, diz Victor Iocca (Abrace)

Victor Hugo Iocca, diretor de Energia Elétrica da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), diz que a pesquisa mostra uma tendência observada nos últimos anos.


“O mercado livre de energia no Brasil só tem crescido. Mais de 30% do consumo já está no mercado livre. O principal motivo para esse movimento é a busca pela estabilidade de custos”, explica.


Segundo ele, isso não significa, necessariamente, uma corrida por custo de energia menor no curto prazo. “Esse é um provável efeito, mas as empresas querem uma garantia de estabilização na compra de energia no longo prazo”, afirma.

Iocca destaca que os consumidores que migram do mercado cativo para o livre têm a garantia de que o custo de energia será mais competitivo, mas, sobretudo, asseguram seu fornecimento no longo prazo. “Eles travam o seu custo de energia no longo prazo, o que é fundamental para o planejamento da indústria”, argumenta. Outro ponto importante da nova onda de migração, diz ele, é a garantia da origem dessa energia.

“Quando você está no mercado cativo, você está debaixo do braço de uma distribuidora, que é a responsável pela compra da energia. Mas, a partir do momento em que você vai para o mercado livre, você poderá escolher quem será seu fornecedor”, explica o diretor da Abrace. Num contexto de transição energética, diz ele, “a grande maioria dos novos consumidores, que está focada também na redução de suas emissões de gases de efeito estufa, vai ao mercado livre para ter acesso direto a um gerador de energia eólica, solar ou biomassa”.

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