FORTALEZA (CE) - Em uma fábrica de cerâmica do Tocantins, uma mudança na preparação da argila ajudou a produzir mais. Em Goiás, a nova destinação de resíduos de madeira fez pequenas indústrias deixarem de gastar R$ 72 mil por ano. No Paraná, empresas do audiovisual começaram a incorporar inteligência artificial à rotina de produção. No Rio Grande do Norte, o desafio foi fazer o setor de recursos humanos olhar além da folha de pagamento.
Os problemas não são os mesmos. As respostas também não.
Nos dias 7 e 8 de outubro, gestores de diferentes regiões do país apresentaram, no Encontro Nacional de Gestores do Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias (Procompi), em Fortaleza, experiências desenvolvidas a partir das necessidades das empresas de cada estado.
“O Procompi é um programa que atende à dor da empresa. Cada uma tem sua dificuldade, muito ligada à região, ao estado e ao contexto em que está inserida. Por isso, é importante que o programa consiga se adaptar e atender às demandas que surgem, com toda a pluralidade e a diversidade das micro e pequenas empresas”, afirma Suzana Peixoto, coordenadora nacional do Procompi pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A troca entre os gestores também permite que uma experiência testada em um estado inspire soluções em outro.
“Estar todos reunidos permite trocar experiências e entender que não estamos sozinhos. A dor de um microempresário de um estado pode ser a mesma de outro empresário em outra região. Essa troca pode gerar novas ideias de projetos, tecnologias, ferramentas e oportunidades para as empresas”, acrescenta Suzana.
Da argila à produtividade
Em 13 municípios do Tocantins, melhorar a competitividade significou percorrer longas distâncias e entrar diretamente no chão de fábrica. O projeto, voltado às indústrias de cerâmica vermelha, combinou consultorias presenciais, capacitações e ensaios laboratoriais para melhorar a qualidade dos produtos e os processos de produção.
A meta inicial era alcançar 15 empresas. Foram atendidas 19. Cada indústria recebeu 24 horas de consultoria, divididas em 3 ciclos, com orientações sobre matérias-primas, secagem, queima e gestão comercial. Os treinamentos somaram 159 participações.
O diagnóstico revelou que parte dos trabalhadores nunca havia recebido treinamento técnico para suas funções e que algumas empresas não realizavam testes laboratoriais para avaliar os produtos. A partir dessas avaliações, os consultores orientaram mudanças na produção e verificaram os resultados em novos testes.
Segundo Andreia Silveira, gestora do projeto no Tocantins, pequenas alterações que antes passavam despercebidas tiveram efeito direto na produção.
“Muitas delas não tinham noção de que uma mudança no processo da argila, na forma de misturar a argila, poderia trazer tanto resultado e economia”, conta.
Os resultados apareceram nos números. Em média, as empresas registraram aumento de 17% na produtividade. Na Cerâmica Progresso, a produção passou de 30 para 42 toneladas por mês, crescimento de 40%. Na Cerâmica Mundial, subiu de 786 mil para 1 milhão de peças mensais, sem aumento no número de trabalhadores. Já a Cerâmica Nossa Senhora Aparecida reduziu o tempo de queima de 90 para 42 horas.
As cerâmicas Mundial e Progresso, que participaram do projeto, também concorrem ao Prêmio FIETO de Inovação, da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (FIETO).
Para Andreia, os ganhos não vieram de uma única intervenção. “Foi um conjunto, desde começar a olhar para o layout e o chão de fábrica até as orientações técnicas para as equipes. Várias pessoas que participaram dos treinamentos nunca tinham tido uma instrução técnica e seguiam um formato de trabalho sem essa orientação.”
Uma economia de R$ 72 mil por ano
Em Goiás, o desafio das pequenas indústrias moveleiras começava antes mesmo da produtividade: colocar a gestão ambiental em ordem. Entre as 15 empresas acompanhadas pelo projeto Diagnóstico Ambiental, 8 operavam sem Licença Ambiental de Operação. Uma delas estava em atividade havia mais de 15 anos sem nunca ter obtido a licença ou sequer solicitado sua emissão.
O problema não parava na documentação. Cerca de 60% não emitiam o Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), e nenhuma possuía um sistema padronizado de separação dos materiais descartados. Em apenas 7 empresas, a geração de resíduos de painéis de fibra de média densidade (MDF) chegava a 56,3 toneladas por mês.
A solução começou dentro das fábricas, com diagnósticos, apoio à regularização e busca por alternativas para os resíduos. Uma delas foi o coprocessamento, que permitiu a 2 empresas eliminar um gasto de R$ 3 mil mensais cada uma com a retirada do material. A economia conjunta chegou a R$ 72 mil por ano.
“O mais interessante foi não ter só um caminho, mas caminhos diferentes para empresas com dificuldades e condições diferentes”, afirma Vanessa Macedo, da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG).
Para ela, o dinheiro que deixa de ser gasto com resíduos pode ganhar outro destino dentro das empresas.
“É mais produtividade, mais competitividade, mais investimento em funcionário e mais investimento em mercado. Para uma pequena empresa, qualquer economia é importante.”
Inteligência artificial entra na rotina do audiovisual
No Paraná, a pergunta era outra: como fazer a inteligência artificial (IA) deixar de ser apenas assunto de palestra e ganhar espaço no processo produtivo? O projeto Inteligência Artificial Generativa na Indústria Audiovisual foi desenvolvido para capacitar empresas a utilizar ferramentas de IA em diferentes etapas da produção.
Ao todo, 18 micro e pequenas indústrias concluíram a capacitação, enquanto 99 empresas foram alcançadas pelas ações gerais do projeto. Entre os participantes que responderam à avaliação, 61,1% afirmaram ter aplicado IA e percebido ganhos de produtividade; 50% relataram redução no tempo das atividades; e 16,7% apontaram diminuição do retrabalho.
Para Erika Machado, gestora do projeto no Paraná, a adoção das ferramentas trouxe ganhos de agilidade e melhorou a qualidade das entregas.
“O material produzido com a IA generativa, nas ferramentas apresentadas durante o projeto, melhorou significativamente em qualidade. Por isso, as empresas se tornaram mais atrativas e competitivas”, afirma.
O RH precisa ir além da folha
No Rio Grande do Norte, atrair e reter trabalhadores era um desafio para as pequenas indústrias. O projeto Gestão de Recursos Humanos atendeu 25 empresas de 9 segmentos industriais. No diagnóstico inicial, nenhuma tinha um plano de ação estruturado para a área de recursos humanos (RH), ainda muito associada à folha de pagamento e às rotinas administrativas.
Após oficinas e mentorias individuais, todas as participantes que concluíram a jornada formalizaram um plano de ação. “Algumas já tinham essa consciência, mas outras precisavam desse empurrão para perceber o quanto é importante investir no RH, na mão de obra e na liderança para ter resultados mais diferenciados dentro do negócio”, explica Kesiane Santana, gestora do projeto no Rio Grande do Norte.
Mais do que organizar processos, a proposta é ampliar o papel da gestão de pessoas nas decisões das indústrias.
“O RH começa a pensar de forma mais estratégica. A empresa não é somente folha de pagamento. Ela tem saúde mental, precisa de processos mais estruturados, rotinas mais organizadas e uma cultura organizacional mais atrativa.”
Liderar também é reconhecer o próprio lugar
Em Mato Grosso, o projeto Lideranças Femininas na Indústria de Mato Grosso atende mulheres que já estão à frente de micro e pequenas indústrias, mas que nem sempre se reconhecem como lideranças. Por isso, a iniciativa reúne ações de liderança, gestão e transformação digital. Até o momento, participam 31 mulheres de 25 empresas.
“A questão é elas conseguirem enxergar esse potencial que já têm, que já desenvolvem, mas conseguirem se reconhecer e se enxergar também”, explica Nayara Santos, gestora do projeto em Mato Grosso.
As mentorias seguem em andamento, e os resultados ainda são parciais. Segundo Nayara, algumas empresas já começaram a rever processos, enquanto participantes passaram a reconhecer melhor seu papel na gestão. A expectativa é que essas mudanças continuem após o encerramento das atividades. “Nós esperamos ter mulheres mais preparadas, gestões mais preparadas e empresas mais competitivas.”
Na Bahia, resíduos podem virar novos negócios
No Polo de Camaçari, na Bahia, a proposta é conectar indústrias para que resíduos e subprodutos de uma empresa possam ser aproveitados por outra. O projeto Plataforma de Simbiose Industrial para Micro e Pequenas Empresas do Polo de Camaçari prevê um ambiente digital para aproximar quem disponibiliza materiais de quem pode utilizá-los.
A iniciativa conta com o patrocínio de 7 grandes indústrias: Tronox, Bracell, Bayer, Indorama, Unigel, Cetrel e Braskem. Segundo Sandra Pasta, do Instituto Euvaldo Lodi da Bahia (IEL-BA), essas empresas estão indicando fornecedores para participar da plataforma. “A ideia é que as grandes indústrias disponibilizem resíduos, materiais, água ou subprodutos para empresas que tenham interesse em adquirir, seja por troca, permuta ou aquisição comercial”, explica Sandra.
A meta inicial é reunir pelo menos 15 empresas. A plataforma ainda está em desenvolvimento, com conclusão prevista entre novembro e dezembro e expectativa de iniciar as primeiras transações em janeiro de 2027.
Soluções de diferentes regiões
Outros estados também apresentaram experiências de digitalização, gestão e acesso a mercados. Entre elas estão projetos para oficinas de Minas Gerais, uso de inteligência artificial na gestão industrial no Rio Grande do Sul e fortalecimento da reparação automotiva em Pernambuco. Na frente comercial, foram compartilhadas iniciativas de internacionalização no Distrito Federal, a Vitrine de Roraima e um marketplace desenvolvido no Ceará.
Compartilhar experiências para construir o próximo ciclo
A diversidade dos projetos apresentados em Fortaleza também orienta a construção do próximo ciclo do Procompi. O desafio é aproveitar soluções que deram resultado, respeitando as necessidades de cada setor e região.
Para Taís Tessari, analista de Competitividade e gestora nacional do Procompi pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as experiências dos estados podem ganhar escala por meio do Movimento Juntos pela Indústria, iniciativa de convergência estratégica entre o Sebrae e o Sistema Indústria.
“Esses dois dias foram muito importantes para a gente poder identificar boas práticas, resultados relevantes e que a gente quer, a partir desse novo ciclo do convênio, realmente potencializar no âmbito do Movimento Juntos pela Indústria”, afirma.
A intenção é ampliar o alcance das experiências bem-sucedidas, sem perder de vista a pergunta que orienta cada projeto: qual problema aquela empresa precisa resolver?











