O Brasil não perde o futuro por acidente. Perde por hesitação. Enquanto o mundo reorganiza sua economia em torno da inteligência artificial, aqui ainda discutimos se vale a pena remover os obstáculos que nós mesmos criamos. A recente caducidade do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) é mais do que um episódio legislativo. É um retrato do país que engasga sempre que precisa competir.
Infraestrutura digital não é pauta de nicho. É a base invisível que sustenta crédito bancário, prontuário eletrônico, toda a cadeia da indústria automatizada, logística inteligente, serviços públicos digitais. É o chão sobre o qual se ergue a inteligência artificial.
O Redata havia sido desenhado para reduzir o peso dos impostos sobre equipamentos que tornam essa infraestrutura viável. Era um reconhecimento tardio, mas correto: não se constrói economia digital com carga tributária analógica.
A medida perdeu validade e decisões recentes elevaram tarifas sobre itens de tecnologia — servidores, componentes eletrônicos, equipamentos de rede — encarecendo desde data centers até antenas que expandem o 5G.
Dizemos que queremos liderar a transformação digital, mas tributamos os instrumentos que a viabilizam. Tudo isso impacta negativamente o Custo Brasil. Não é apenas burocracia ou imposto alto. É a falta de coordenação que não nos permite alinhar discurso e execução.
O paradoxo é ainda maior porque o Brasil reúne condições raras para ser um dos principais destinos globais de data centers: mercado interno de escala continental, matriz energética majoritariamente limpa, potencial de expansão regional e demanda crescente por serviços digitais.
Projetos desse porte não se limitam a galpões tecnológicos - movimentam construção civil, energia, telecomunicações, cadeias industriais e serviços locais, gerando emprego qualificado, renda e arrecadação. São investimentos de longo prazo que dinamizam economias regionais e posicionam o país como exportador de serviços digitais. Ao transmitir instabilidade regulatória e elevar custos, abrimos mão dessa oportunidade e deslocamos crescimento para outros países.
Trata-se de proteger o próprio país. Quando dados estratégicos são processados fora, aumentam a exposição a riscos cibernéticos e a dependência tecnológica. Quando servidores estão a milhares de quilômetros, cresce a latência — o tempo de resposta que afeta operações financeiras, serviços de saúde, comércio eletrônico e sistemas públicos.
Abrir mão dessa infraestrutura significa aceitar vulnerabilidade. Há também quem sustente que elevar tarifas seria uma forma de defender a soberania do setor produtivo nacional. Mas soberania, na economia cada vez mais digital, não se constrói com barreiras sobre tecnologias que o país não produz em escala competitiva.
Diferentemente de uma política de desenvolvimento regional voltada à integração territorial, infraestrutura de dados exige inserção nas cadeias globais. Autonomia nasce da capacidade de atrair, instalar e proteger infraestrutura estratégica em solo nacional — não de encarece-la.
Tributar tecnologia essencial não fortalece a soberania. A restringe. Quando ampliamos tarifas sobre tecnologia, ampliamos essa corrosão. O efeito não é restrito a grandes empresas globais. Ele chega à ponta, perpassando toda a cadeia. Encarece a expansão de redes móveis. Dificulta a interiorização do 5G. Retarda a digitalização de pequenas e médias empresas. Aumenta o custo de serviços baseados em nuvem. Perdem-se profissionais da área de TI, aprofundando esse que já é um problema que o Brasil vem enfrentando. E, no limite, reduz a velocidade com que empregos qualificados são criados.
A balança comercial brasileira também será penalizada. A caducidade do Redata penaliza a autonomia tecnológica do Brasil, tornando o custo de processamento de dados superior ao ticket médio internacional, aumentando ainda mais o gap entre o custo do Brasil e o externo.
A inteligência artificial não espera. Países que oferecem previsibilidade e custo competitivo atraem investimentos bilionários. Estados norte-americanos disputam data centers com incentivos estáveis. O Chile consolidou ambiente regulatório favorável. A Europa trata infraestrutura digital como prioridade estratégica.
Em setores intensivos em capital e planejamento de longo prazo, previsibilidade é ativo essencial. Quando ela falta, o capital escolhe outro endereço. O Brasil tem condições reais de disputar espaço na economia da inteligência artificial. Mas precisa decidir se continuará tratando infraestrutura digital como fonte imediata de arrecadação ou como base estratégica de desenvolvimento. Países que lideram o futuro reduzem fricções. Não as tributam.
*Jefferson Gomes é diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Tatiana Ribeiro é diretora-executiva do Movimento Brasil Competitivo (MBC).
O artigo foi publicado no jornal Poder 360, no dia 15 de março de 2026.
REPRODUÇÃO DO ARTIGO - Os artigos publicados pela Agência de Notícias da Indústria têm entre 4 e 5 mil caracteres e podem ser reproduzidos na íntegra ou parcialmente, desde que a fonte seja citada. Possíveis alterações para veiculação devem ser consultadas, previamente.



