Reportagem: Nathalia Zôrzo
Direção de arte: Daniel Pedrosa
Direção-geral: Letícia Luvison
Em meio a um apelo cada vez maior pela adoção de práticas sustentáveis em nossas vidas, uma nova tendência surgiu no mundo da primeira infância e deve dominar as prateleiras das lojas neste Natal: os brinquedos em madeira.
Além de educativos, com inspiração montessoriana, eles são parceiros do meio ambiente, já que, nessa escolha, o plástico dá lugar à madeira certificada. De quebra, são charmosos, com visual retrô que remete à época dos nossos avós.
O Brasil, que já se consolidou como o 4º maior polo produtor de brinquedos do mundo, deve movimentar R$ 6,6 bilhões neste Natal, considerando também as vendas do Dia das Crianças. Isso representa 60% de todo o faturamento estimado para 2025, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). E uma fatia crescente desse valor vem de produtos repaginados para conquistar uma nova geração de pais e filhos.


Em 1998, quando foi fundada, a NewArt do Brasil não era exatamente do ramo de brinquedos (e nem sonhava em ser). A expertise da indústria, instalada em Benedito Novo (SC), era a fabricação de massageadores de madeira e apitos que imitam o som de aves da fauna brasileira. Foi só em 2006, com o nascimento dos filhos da proprietária da marca, Sônia Tamasoni, que a pequena fábrica catarinense decidiu desenvolver uma linha de brinquedos educativos em madeira.


Hoje, além de manter viva a tradição de fabricar apitos de aves artesanalmente e carregar o título de ser uma das 5 fábricas do mundo que oferecem esse item, a NewArt do Brasil conta com uma linha de 110 produtos em madeira voltados para bebês e crianças de 8 meses a 5 anos de idade.

Toda a madeira usada na fabricação é certificada e proveniente de reflorestamento próprio e de áreas reflorestadas por parceiros da região. Além disso, 100% dos resíduos gerados na produção, como lascas e cavacos, são reaproveitados por empresas locais.
A fábrica também gera sua própria energia por meio de placas solares, as embalagens dos brinquedos e apitos são produzidas com papelão reciclado, e as tintas usadas nos brinquedos são atóxicas. Há três anos, a Newart eliminou totalmente o uso de adesivos plásticos, passando a aplicar toda a arte gráfica diretamente sobre a madeira.
Cesar Sebrão lembra que, para além do caráter sustentável, os brinquedos em madeira sempre foram muito procurados pelos pais porque carregam um forte valor afetivo. Mas foi durante a pandemia de Covid-19 que a indústria de brinquedos de madeira viveu um verdadeiro boom de vendas.
“Com as famílias confinadas em casa, surgiu uma nova necessidade: encontrar formas de entreter as crianças longe das telas. A preferência por produtos sustentáveis e com consciência ambiental também ganhou força, favorecendo naturalmente os brinquedos de madeira”, lembra. “Esse novo cenário nos trouxe grandes desafios. Se antes os lançamentos de produtos aconteciam duas ou três vezes por ano, hoje são praticamente bimestrais, acompanhando a velocidade das redes sociais e a necessidade dos lojistas por novidades constantes”, conclui Sebrão.

Os irmãos Ewerton e Ana Paula Romano cresceram no chão de fábrica da empresa de brinquedos dos pais, em Bragança Paulista (SP). Um mercado extremamente competitivo, no entanto, fez o patriarca, seu Valdir, fechar as portas do negócio, em 2015.
Foi quando a ABC Brinquedos deu lugar à Babebi, uma marca que trouxe uma nova proposta para o mercado nacional.
Assim como a Newart, a Babebi trabalha com madeira e embalagens certificadas, usa energia solar na fábrica e destina os restos de insumos a cooperativas da região.



Ewerton Romano também lembra da pandemia de Covid-19 como principal fator para impulsionar as vendas do setor e acredita que aquele momento foi importante também para virar uma chavinha na cabeça dos pais, que passavam mais tempo com seus filhos em casa.
“Quando eu era mais novinho, meu pai falava pra eu aprender no computador, ir pra tela. E anos depois a gente aprendeu que as telas em excesso acabam atrapalhando o desenvolvimento infantil. Depois que os profissionais entenderam e começaram a divulgar isso, os pais começaram a ficar mais conscientes”, lembra. “A pandemia também nos ajudou, porque as crianças tiveram que ficar em casa, então tínhamos que entretê-las enquanto a gente trabalhava. E uma das maneiras de entreter era o brinquedo”, explica.
Hoje, além das crianças, os brinquedos da Babebi são usados por profissionais de desenvolvimento infantil, como pedagogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Nos consultórios, eles viram ferramenta para o profissional conseguir “acessar” a criança.
“Eu acredito que o sucesso da Babebi se deve a esses dois fatores: a gente entrou em um nicho em que as famílias e os profissionais nos compram e nós usamos a madeira como matéria prima, que é um material mais nobre e sustentável, em um design e uma embalagem atrativos”, resume Ewerton.
Os estudiosos dizem que os bebês que estão nascendo a partir de 2025 – a chamada geração beta – vão ter uma relação diferente com as tecnologias. Será a primeira geração a não conhecer o mundo sem a Inteligência Artificial e isso muda profundamente a forma como essas crianças vão aprender, se relacionar, brincar e consumir.
Para a geração Beta, a diferença entre o físico e o digital praticamente não existirá: a interação com assistentes de IA, brinquedos conectados e conteúdos personalizados vai fazer parte do cotidiano desde o berço.
Para a psicopedagoga, mestre em educação e gerente do SESI Mato Grosso, Simone Figueiredo Cruz, essa nova geração vai exigir que a indústria trabalhe em duas frentes simultâneas: criar experiências híbridas, capazes de dialogar com um público que vai ver o digital como extensão natural do brincar, e ao mesmo tempo desenvolver produtos analógicos, que garantam estímulos inegociáveis, que não podem ser desenvolvidos no mundo digital:
Mas, da mesma forma que a brincadeira "analógica" é indispensável, Simone esclarece que o mundo digital também traz inúmeras oportunidades de aprendizagem que as gerações passadas não tiveram acesso. O problema das telas, na visão da especialista, está nos excessos e na falta de supervisão dos adultos.

"Quando a criança fica estática em uma tela, ela passa a ocupar o papel de observadora. Se ela ficar muito tempo nessa condição, passa a ter atrasos de fala, de linguagem, de interação. Ela aprende um comportamento introspectivo em que ela não precisa do outro para ser feliz. Fora os problemas de visão, de sono e síndromes que podem ser desenvolvidas", resume.
Por outro lado, a psicopedagoga lembra que os aplicativos de celular e as redes sociais trazem muitos conteúdos educativos, que, quando usados de forma responsável, são grandes aliados no aprendizado. Músicas para ajudar na alfabetização, programas para ensinar inglês, jogos de matemática, lógica e conhecimentos gerais são alguns exemplos.
No que depender da indústria de brinquedos, a nova geração pode contar com muitas novidades nas prateleiras. Segundo o presidente da Abrinq, Synesio Costa, o setor lança 1.200 brinquedos novos todo ano.
Para Cesar Sebrão, da Newart, lutar contra a tecnologia é inútil, porque cedo ou tarde ela vai fazer parte do cotidiano da criança.
"O que buscamos, junto com os pais, é adiar ao máximo esse acesso, permitindo que, nos primeiros meses e anos de vida, a criança se envolva com brincadeiras lúdicas, convivendo e interagindo com outras crianças e com a família. E esperamos que, quando as telas chegarem à vida da criança, ela não abandone o lúdico, que os aplicativos e jogos sejam apenas mais uma opção", resume o gerente.

A corrida da indústria brasileira de brinquedos não é apenas por vendas no Natal, mas por relevância em um futuro em que sustentabilidade e tecnologia caminham lado a lado. Para o presidente da Abrinq, Synesio Costa, o setor só tem a ganhar com esse novo momento.
Se conseguir equilibrar inovação digital com propósito ambiental — sem perder o encanto do brincar — o setor pode não só conquistar a Geração Beta, mas também ocupar um espaço estratégico no mercado global. Seja feito de bioplástico, madeira certificada ou conectado a um aplicativo, o brinquedo que atravessa gerações continua sendo aquele capaz de despertar algo simples e essencial: a imaginação.