Em defesa dos empregos e da economia só posso dizer não ao fim da taxa das blusinhas

Em artigo publicado no Jota, Ricardo Alban afirma que o fim da taxação sobre compras internacionais de até US$ 50 ameaça empregos, investimentos e a competitividade da indústria brasileira

Foto: Shutterstock

Cogitar o fim da “taxa das blusinhas” é uma afronta à indústria brasileira e ao desenvolvimento econômico de nosso país. O que está em jogo não é uma questão tributária, mas a concessão de benefícios a indústrias estrangeiras em face a prejuízos diretos para o Brasil, com impactos de perdas de empregos e fechamento de micro e pequenas empresas. Esse é um debate que sequer deveria prosperar em um país que busca fortalecer sua base produtiva e desenvolver sua indústria.

Permitir a entrada de importações de até 50 dólares sem tributação é o mesmo que financiar a indústria de países como a China, principal exportador de produtos de baixo valor para o Brasil, especialmente no setor têxtil. O prejuízo é direto a quem fabrica e comercializa em território brasileiro. Não se trata de uma discussão sobre consumo, mas sobre a sustentabilidade do comércio local e da produção de pequeno valor.

Isentar produtos estrangeiros enquanto os nacionais permanecem tributados fere um princípio básico de coerência econômica. Um sistema que penaliza a produção interna desestimula investimentos, reduz a competitividade e enfraquece a indústria. Em um cenário global marcado por disputas comerciais e por políticas de proteção econômica, é contraditório que o Brasil cogite abrir mão de instrumentos mínimos de equilíbrio concorrencial.

Não há exemplos consistentes de países que adotem a lógica de tributar o produto nacional enquanto desoneram o importado. Ao contrário, observa-se o fortalecimento de mecanismos de defesa comercial ao redor do mundo. Nesse contexto, discutir a isenção de compras internacionais de baixo valor vai na contramão das melhores práticas internacionais.

Só posso dizer não ao fim da taxa das blusinhas. A indústria brasileira está unida contra esse movimento que voltou a ganhar força em abril, quando circularam informações de que o governo federal estaria com a intenção de voltar a isentar do imposto de importação produtos estrangeiros vendidos por sites de vendas, a maioria deles asiáticos.

O setor produtivo está unido em busca da preservação da conquista que tivemos quando a taxa da blusinha foi instituída. As plataformas de e-commerce estrangeiras passaram a pagar algum tipo de imposto no país, em 2023, com o ICMS estadual, e, em 2024, passou incidir uma taxação de 20% do imposto federal de importação. Desde então, tivemos efeitos positivos relevantes, como a criação de milhões de empregos no varejo e na indústria, o que contribuiu para o Brasil atingir o menor desemprego de sua história.

O varejo e a indústria voltaram a crescer e investir, contribuindo para a maior massa salarial e renda média da história. Tivemos também ganhos diretos para o consumidor, a partir da maior oferta de produtos nacionais que prezam pela qualidade e segurança e com preços abaixo da inflação.

Estudo recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que a “taxa das blusinhas” impediu a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados no Brasil. Essa redução ajudou a preservar mais de 135 mil empregos e quase R$ 20 bilhões na economia brasileira. Portanto, fica claro que o objetivo dessa taxação não é tributar o consumidor, mas proteger a economia. Tornar a indústria brasileira competitiva é primordial para que nós possamos manter empregos e gerar renda. Não somos contra as importações. Elas são bem-vindas, aumentam a competitividade, mas é preciso que entrem no Brasil em condições de igualdade.

O ponto central nunca foi o comércio internacional em si, mas as condições desiguais em que ele acontecia. Por muitos anos, produtos importados entraram no Brasil com uma carga tributária e exigências regulatórias bem menores do que aquelas impostas à produção nacional. A medida buscou atenuar essa distorção, embora ainda esteja longe de eliminá-la completamente. Esperamos ao menos que a atua taxação sobre importados seja mantida e que não haja medidas tomadas no calor do ano eleitoral.

*Ricardo Alban é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O artigo foi publicado no portal JOTA, no dia 07 de maio de 2026.

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